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05 fevereiro 2007

História de um segredo

Um documentário de Mariana Otero
6 de Fevereiro 21h30 Teatro-Cine da Covilhã
«Quando tinha quatro anos e meio a minha mãe desapareceu. A nossa família disse-nos, a mim e à minha irmã, que ela tinha ido trabalhar para Paris. Um ano e meio mais tarde, a nossa avó confessava-nos que ela tinha morrido numa operação ao apêndice. Durante a nossa infância e adolescência, o nosso pai nunca nos falou dela, a não ser para nos dizer que ela tinha sido uma pintora e uma mulher extraordinária. Fechou os quadros dela num armário e arrumou as fotografias numa gaveta, que nos proibiu de abrir.»

Organizado pelo MOVIMENTO PELO SIM!

01 fevereiro 2007

Filmes hoje

18h00, Lisboa, Cinema S. Jorge
Documentário "Como um Barco na Noite", da realizadora irlandesa Melissa Thompson
Movimento Voto Sim

«O aborto é ilegal na Irlanda, punível com pena máxima de prisão. Apesar disso, 8.000 mulheres irlandesas viajam todos os anos até Inglaterra para fazerem Interrupção Voluntária da gravidez. Fazem esta viagem em segredo e regressam em silêncio. COMO UM BARCO NA NOITE é um documentário de 30 minutos que acompanha a história de uma jovem pintora, de uma mãe trabalhadora com cinco filhos e de uma rapariga do campo. Ao longo dessa viagem ouvimos testemunhos de assistentes sociais, médicos e conselheiros de planeamento familiar sobre a história legal e de mentalidades que obriga as mulheres a essa viagem.»

Das 18h00 às 20h00, Lançamento do DVD "Uma Questão de Mulheres"
Lisboa, Livraria Ler Devagar (Rua da Rosa, 145)
Com a presença de Inês Pedrosa e Rita Blanco
Movimento Cidadania e Responsabilidade pelo Sim


«Uma Questão de Mulheres parte da condenação à morte por prática de abortos, em 1943, de Marie-Louise Giraud (no filme, Marie Latour), a última mulher executada por guilhotina em França. O centro do filme de Chabrol não é tanto a questão do aborto, de resto mais entrevista do que vista ao longo do filme (como prática mantém-se relativamente abstracta), mas antes as razões de uma mulher que o pratica num determinado contexto: Marie torna-se abortadeira acidentalmente (depois de ajudar a vizinha que encontra mergulhada num banho de mostarda como tentativa de pôr termo a uma gravidez indesejada, outras mulheres lhe batem à porta e monta-se um negócio caseiro) encarando a sua actividade como a prestação de um serviço (“um serviço de mulheres”, como diz ao marido) (...)).»

31 janeiro 2007

Filmes pelo SIM

Hoje, Lisboa: mostra de curta-metragens pelo SIM

Realizadores, actores e técnicos de cinema juntaram-se e criaram filmes de curtíssima duração pelo SIM. Nesta 4ª feira, às 17.30 no Cinema King (sala 2), serão apresentados os trabalhos seguidos de debate com os seus autores e colaboradores.

26 janeiro 2007

E agora para algo completamente diferente



Gato Fedorento no Prós e Contras (no You Tube).

A minha actividade de campanha prossegue no Sim no referendo e aqui voltarei à cinefilia.

24 janeiro 2007

Pelo sim, pelo não



O movimento pelo Não atola-se cada vez mais na contradição das suas afirmações; depois de Marques Mendes, Marcelo e César das Neves, é Maria do Rosário Carneiro (deputada católica do PS, dita independente) que defende a despenalização, mas quer votar Não.

A contradição está cada vez mais explícita: "É muito curto que a simples vontade de uma pessoa possa depender da vontade de outra", diz M. Rosário Carneiro, querendo com isto significar que há uma vida que decide sobre a outra. E para os do Não, decide o embrião. Ora o mesmo argumento invertido é o que defendemos: para nós, decide a mulher.

E como realmente o embrião, como toda a gente sabe, não decide nada, o que eles querem é que a lei decida da vida de cada mulher. Em nome do embrião. E vêm novamente prometer aquilo que nunca antes os católicos do PS e do PSD fizeram, nos 9 anos desde o anterior referendo: propor “um anteprojecto de lei no sentido de não criminalizar mulheres que tenham feito abortos clandestinos”. Dá vontade de rir.

Não sei se neste atoleiro de duas causas inconciliáveis, os do Não estão involuntariamente a fazer campanha pelo Sim, ou se, pelo contrário, isso não é uma estratégia de captação dos votantes indecisos apelando àquilo que afinal é consensual: a despenalização das mulheres.

(Recorte do Público de 24-01-2007)

23 janeiro 2007

Duas causas (2)



Divididos entre duas causas está um séquito de pessoas confusas que diz Nim, ou seja, vota com uma opinião dividida ou nem sequer irá votar, por não saber resolver as suas contradições. É o caso de Marques Mendes, que, tal como o herói do filme de há cinquenta anos, é contra o aborto e é contra a prisão:

«É certo que se pode verificar um conflito de interesses entre o seu [do feto] direito à vida e o direito da mulher à sua autonomia, princípio que também merece o meu apoio. (Muito bem dito.) De facto, não se pode contestar o direito da mulher a só conceber um filho se e quando o desejar, usando da sua plena liberdade e utilizando os métodos anticoncepcionais que entender. Só que esta escolha tem de ser feita, responsavelmente, antes da concepção livre de um novo ser

Ora aí está uma escolha que é tanto responsabilidade das mulheres como dos homens. E continua: «Mas, fora das situações que a lei já consagra, o direito da mulher à sua liberdade de escolha termina quando começa o direito à vida de um novo ser humano.»

Finalmente, está aqui dito, com todas as letras: o direito da mulher à sua liberdade termina quando começa o direito à vida do embrião. É claro como a água. A liberdade da mulher acabou quando engravida. A vida da mulher conta menos que a do embrião. E mesmo que ela tenha outros planos para a vida (planos comuns, como estudar ou trabalhar), mesmo que saiba (por razões que só ela pode saber) que não tem condições para ter um filho desejado e bem tratado, esse embrião tem primazia e a sua vida incipiente é mais importante que a da mulher. Apetece perguntar onde é que o senhor Marques Mendes acha que acaba a liberdade do homem que lhe fez o embrião.

Outro argumento que usa é o de que segundo a constituição (artigo 24.º) “A vida humana é inviolável.” Mas a constituição não define o que é uma vida humana, nem estabelece o seu início, podendo mesmo presumir-se que seja o nascimento, já que não prevê o caso de duas vidas existirem no mesmo corpo. É possível a uma lei violar a vida humana de uma mulher para lhe impôr a carga obrigatória de criar uma outra vida? Achará ele que o valor das vidas humanas é absoluto e independente dos seus sentimentos, dos seus sofrimentos, da sua qualidade de vida? Se eu fosse do Não, defenderia então trabalhos forçados para os homens que se descuidaram.

Continua o presidente do PSD: «Coisa diferente é saber se, nestes casos, a pena de prisão é correcta. Não fujo, também, a esta questão e repito o que já antes afirmei: não sou favorável à pena de prisão para a mulher que decide abortar, seja antes ou depois das 10 semanas de gravidez

Ora aí estão as duas causas. Então se é contra a prisão, devia votar Sim à despenalização. Mas vota Não, porque acha mal que se aborte. As duas causas são incompatíveis, mas ele explica que é uma questão de a lei não facilitar:

«Consagrando-a, ela traduzirá um sinal de facilidade, não uma ideia de responsabilidade É como aqueles pais que ameaçam "se te portas mal, castigo-te" e depois não castigam nada, é só para ir avisando, para os miúdos saberem quem manda, percebendo estes perfeitamente que é tudo a fingir. Pelo sim, pelo não, ele diz que Não.

É realmente muito difícil deslindar os paradoxos do Não, mas há mais quem se esforce... E o adeptos das duas causas crescem: agora também o abominável homem das Neves e professor Martelo.

Apesar das contradições, é para eles muito fácil decidir. É uma questão meramente filosófica - o valor da vida em abstracto - que se resolve como uma equação absoluta: 1+1=2. A questão do sofrimento não existe. Não conta o sofrimento da mulher, não conta a sua angústia, nem conta que o tal embrião não sofra nadinha com a IVG nem tenha o sistema nervoso desenvolvido e sinta tanto como uma borbulha (que só dói a quem a possui). Nem conta que ele venha a ser um infeliz, um abandonado, um maltratado ou um mal-amado. É um pedaço de vida. E a vida é para sofrer. Ter filhos não custa nada às mulheres. Será precisamente para isso que elas existem.

Que interessa a Mulher? Se as mulheres teriam alma era uma dúvida medieval. Os teólogos descobriram mais tarde que sim. Depois achava-se que eram os negros que não tinham alma. Outros há que defendem que os cães ou as vacas como sofrem têm alma e não querem matá-los. Agora um embrião, não me venham dizer que tem alma. Nem que sofre. Mais sofre uma mosca.

P.S. Fala-se frequentemente em feto, mas devia falar-se apenas de embriões. Clinicamente o embrião passa a chamar-se feto depois da décima semana. Aliás não tem sido contestada a questão dos embriões excedentários congelados nos processos de fertilização in vitro e reprodução medicamente assistida, aqueles que ficam de reserva para o caso de os outros não pegarem e que, consoante a vontade do casal, hão-de ser desmanchados se não forem usados para experiências científicas. São tão embriões como todos os outros, mas como não estão na barriga das mulheres, como ainda não são parasitas, talvez não pareçam assim ter tanta vida, não é? Nem têm os mesmos "direitos".

Desenho de Alice Geirinhas.

22 janeiro 2007

Duas causas



Duas Causas é um filme de 1952, do realizador Henrique Campos, que põe em evidência o problema do aborto naquela época. É uma história de família pequeno-burguesa preocupada em casar bem a filha crescida e encaminhar o filho estudante de direito, família que inclui ainda uma rapariga enjeitada, humildemente grata por ser protegida e tratada carinhosamente "como se fosse da família", e por quem se enamora o rapaz, um tanto estouvado, que logo a desdenha, enquanto procura casamento mais conveniente, para subir de classe...

Entretanto, como ficou grávida, a "ingénua" (personagem-tipo do cinema dessa época) vai ter que abandonar a casa, para não envergonhar a família. O pater familias fica furioso com o canalha que desonrou a menina, sem suspeitar que era o seu próprio filho, o que ela também nunca revela, assumindo a desonra sozinha.

O rapaz entretanto defende a sua primeira causa em tribunal: a de uma rapariga que tentou sem sucesso interromper uma gravidez, ou seja, atentou contra o filho que traz em si e vai ser julgada por isso. Como advogado defende que não é ela a culpada mas o sim o homem cobarde que a abandonou naquele estado e a deixou desesperada e sem ter como sustentar a futura criança. A sua eloquência comove todo o auditório e consegue suscitar o arrependimento do homem, presente na plateia, que assume a culpa e promete casar com a mulher.

Depois de muito felicitado por todos e recebendo os agradecimentos do casal reconciliado, o herói dá-se conta da contradição entre a causa alheia que defendeu e o seu próprio egoísmo, e os remorsos levam-no a casar com a namorada grávida. É uma reconversão quase artificial, porque a contradição interna é meramente esquemática, mas tem uma função ideológica aqui: sanar a "dialéctica" masculina entre a fuga e o dever, se tudo entrar na ordem estabelecida e reconhecida do casamento. O que foi abuso, desonestidade, arrivismo ou hipocrisia, tudo isso se resolve desde que as personagens aceitem o seu lugar na sociedade.

O filme não pretende apresentar um problema, nem evidenciar as contradições interiores das personagens, pretende apenas apresentar o casamento como solução óbvia para o problema da gravidez, mandando o espectador para casa com as certezas no lugar. A asneira é bem tolerada, desde que aconteça dentro da ordem social.

Hoje, que o casamento já não é um imperativo social, ser mãe solteira já não é um estigma (como ainda há 30 anos), deixou de haver filhos “naturais” e o divórcio é frequente, na questão do aborto continua a responsabilizar-se moralmente a mulher, esquecendo-se que há por certo um homem também responsável, já não pela desonra, mas pela “falta de cuidado” e frequentes vezes pelo desinteresse que demonstra pelo produto “vivo” dessa sua inconsciência, fraqueza ou deslize. É o caso, de que tanto se fala, do tal pai biológico que acordou tarde de mais para a criança que não queria, e que só depois decidiu reclamar...

Em 50 anos mudou muita coisa: as mulheres são livres e independentes, já ninguém espera a tutela dos homens, facilitando-se a desresponsabilização masculina em relação à procriação natural, embora haja por lei averiguações de paternidade. Mas mantém-se igual a penalização criminal do aborto centrada nas mulheres, sobre quem recai toda a culpabilidade. É isso que falta mudar.

17 janeiro 2007

A culpa



Não há nada como os blogues para mostrar o que vai na alma das pessoas. Começo a perceber melhor a problemática do lado do Não. O problema principal deles não vem de serem castigadores, ou machistas, ou hipócritas, ou natalistas. Nem é o problema da “vida”. É uma questão muito maior: a culpabilização.

«O que incomoda quem anda a fazer campanha pelo NÃO não é a prática do aborto, apenas a sua legalização. (...) Claro que estas pessoas acham legítimo que se pratique o aborto, o que não acham legítimo é que seja legalizado, que seja socialmente aceite, que deixe de ser feito às escondidas».

Como explica em entrevista Monsenhor Luciano Guerra, reitor do santuário de Fátima: «- É a favor ou contra a penalização? - Sou a favor e não sou a favor. Em princípio, entendo que todo o mal tem uma pena, a começar pela própria família, até para correcção do mal. Mas, às vezes pode haver atenuantes, por exemplo, se houver arrependimento

Portanto: «A pílula do dia seguinte. Para um crente, o seu uso consubstancia um pecado, a ser resolvido ou não – segundo a liberdade de cada um – em confissão. (15-1-2007)

« - Um crente que pratica o aborto não pode ser absolvido? - Quem teve uma fraqueza e se arrepender é objecto da misericórdia divina. Mas a Igreja é bastante dura e o Direito Canónico excomunga essa pessoa. A pessoa faz um aborto em plena consciência de que está a fazer um mal

Faz o que eu digo, não faças o que eu faço: «Pois eu sou completamente contra o aborto; eu própria até já abortei uma vez, mas vou votar "não".»

É claro que esta frase é incompreensível para aquelas pessoas que julgam que os actos tem que estar de acordo com as convicções: "Nem vale a pena comentar nem a hipocrisia nem a imbecilidade desta posição" (15-1-2007) .

Mas os outros alvitram: «Acaso você nunca excedeu o limite de velocidade na estrada? E que votaria agora num referendo sobre o assunto?» (Comentário no Random Precision)

Para o bom católico, há liberdade na medida em que as pessoas são livres de pecar na sua consciência. Mas as regras morais devem ser estritas, para que aquele que peca se sinta culpado e pague por isso. Para os católicos, as leis servem para dar má consciência. Mas nada impede que se aborte, ou se use preservativo, ou se mate, tudo é igual, mas tudo é perdoável.

«Se «o aborto é uma questão de consciência», como afirmam estes dignitários católicos, algo que pertence ao «campo da liberdade pessoal e da consciência» acrescenta Policarpo, porque razão a Igreja se acha com legitimidade para negar à mulher quer a liberdade pessoal quer o direito à liberdade de consciência?» (in Diário Ateísta)

Eles acham que abortar é errado. Logo, quem o pratica tem de sofrer, na carne, na dificuldade, na maquia que paga, e na culpabilização, para não acharem todos que é muito fácil fazer asneiras. Todos são livres de errar, mas há que sofrer. Para haver arrependimento (e avé-marias).

O que eles querem - já que só a culpa sustém os católicos de fazerem mais asneiras do que já fazem - é que não venham agora os ateus dizer (e legislar) que não há culpa, que não é crime, e lá ficam eles com uma culpa impossível de condenar...

(Imagem sacada do google)

16 janeiro 2007

Os atávicos



Não há nada como os blogues para mostrar o que vai na alma das pessoas. Por exemplo, a demonstração pura do medo masculino da incerteza da paternidade, que o leva a querer dominar - desde sempre - o corpo das mulheres, e particularmente o da sua.

A angústia do corno no momento do referendo é esse caso: «No caso do sim ganhar, uma mulher casada pode fazer um aborto sem o conhecimento ou sem o consentimento do marido?» «A dúvida não era como poderia o pai evitar o aborto, mas sim se a mãe seria responsabilizada perante a lei pelo seu acto sem o acordo do marido, por exemplo pelas obrigações decorrentes do contrato matrimonial.»

Para estas almas, o casamento é um vínculo que obriga a mulher a depender das autorizações do marido (como antigamente para ir ao estrangeiro, talvez para evitar uma ida a Badajoz...).

Para reorientar o debate, proponho que voltemos a discutir o problema da alma. As mulheres têm alma? Os embriões têm alma? Quem tem mais alma?

(Imagem sacada do google.)

15 janeiro 2007

O slogan dúbio



Um slogan aparentemente tão simples que tem duas (ou mais) respostas possíveis, nenhuma delas óbvia, todas retorcidas: quem responde Sim, apoia o Não; e quem diz Não, vota Sim ou... Não.

Pergunta - Abstenção para manter a prisão?
Resposta A - Sim, não votar para manter a prisão - para ganhar o Não.
Resposta B - Não, votar para não manter a prisão - votar Sim.
Resposta C - Não, votar sim, mas para manter a prisão - votar Não.

Este slogan é o espelho perfeito da indefinição política do partido socialista. Um slogan polissémico que cada um lê como quer, um slogan para espalhar a confusão total. Tal é a indecisão que, ainda por cima, não afirma, pergunta. E passa a mensagem errada (ou certa?): reforça a ideia de abstenção como possibilidade de tomar posição; reforça a ideia conservadora de manter, e ainda reforça a ideia de castigo (que muitos aprovam): a prisão.

A pergunta directa e inequívoca seria:

P - Votar para acabar com a prisão?
R 1 - Não, não votar, para não acabar com a prisão.
R 2 - Sim, votar, para acabar com a prisão.

Mas o slogan teria que ser afirmativo: Votar SIM para acabar com a prisão.


O slogan irmão é igualmente mau e errado, pelas mesmas razões:



Melhor seria: Votar para pôr fim à clandestinidade.

Incompetência ou ubiquidade? É caso para lhe chamar uma anti-campanha.

13 janeiro 2007

Sim, obrigada



Sim, as pessoas que defendem o Não são como carrascos. Estão prontas a condenar sem conhecer as vítimas, nem saber as causas. São pessoínhas intolerantes, moralistas e castigadoras que acham ainda que podem impôr aos outros/e às outras "valores que em princípio são universais" (como diz um anónimo cobarde no post abaixo citado) - mesmo se não o são para os outros. (Vá-se lá explicar-lhes que por isso mesmo não são universais... É que não entendem.)

Apesar de todas as nuances e combinatórias com que se definem os apoiantes do Sim e do Não e da argumentação ambivalente em torno de questões acessórias - liberar, mas não pagar; abortar não, mas só se; penalizar mas não prender; mais um dia menos um dia; clínicas ou hospitais; juramento de Hipócrates ou hipocrisia, etc. - só há duas opções no boletim de voto.

E entre essas duas opções de voto há uma só diferença fundamental: "No referendo sobre a IVG, o campo do Não quer impor os seus valores a todas as pessoas. O campo do Sim acha que são as pessoas que tomam decisões sobre as suas vidas. A importância simbólica do referendo reside aqui: divide as águas quanto à noção de liberdade e fá-lo de maneira radical justamente por remeter para o universo do corpo, da sexualidade, da reprodução, do género - aquele onde é mais viva a batalha entre a prisão (da "natureza" e da tradição) e a liberdade (da cultura e da invenção)" (de Os tempos que correm).

E aqui é que entra a "igualdade de género": é que dificilmente um embrião pode ser feito sem a colaboração, a conivência e a responsabilidade de dois: um homem e uma mulher. A igualdade está na liberdade de escolha. E na possibilidade de uma decisão conjunta. Quando não há acordo, há desigualdade e quem a sofre é a mulher. O corpo é dela. E é sua a última decisão. A desigualdade está na tomada de decisão, que é precisamente individual.

A desigualdade de género passa por aceitarem os homens que nunca hão-de ser mães. E por aceitarem que ser mãe é um acto de liberdade, que inclui o direito a procriar mesmo sem a sua concordância e o direito a abortar mesmo a sua autorização. Eu entendo que custa. Mas é assim mesmo. (Ser pai é uma coisa que se decide na fase anterior.)

Há que aceitar esta igual desigualdade. Ou persistir nos valores machistas que perpetuam a repressão milenar sobre a vida, o corpo e a liberdade das mulheres - exactamente com o único propósito de controlar a sua fecundidade.

06 janeiro 2007

Os moralistas (2)



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A Sra. D. Matilde Sousa Franco (do PS) acha que deve combater aquilo que ela chama "bomba-relógio demográfica" com a pena de maternidade para quem engravidar. Assim é contra a despenalização do aborto até às 10 semanas, o que considera uma liberalização, como se cada mulher se apropriasse dos seus meios de produção e os privatizasse. Para ela, a produção de bebés não deve ser deixada à iniciativa individual, pois o estado-nação-sociedade precisa de novos seres e, como os incentivos que há aparentemente não chegam, é preciso evitar desperdícios.
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Mais grave é a demagogia dos seus argumentos: falar em problema demográfico invocando a Comissão Europeia é uma distorção do argumento de autoridade; tanto mais que a recomendação europeia quanto à IVG é contrária às suas convicções; dizer que o aborto aumentou em todos os países onde foi permitido é uma mentira redonda; dizer que "mais de 80% das mulheres que abortaram não o teriam feito se tivessem o apoio familiar e da sociedade" é inventar dados e ignorar o estudo mais recente encomendado pela APF, de que retiro o gráfico abaixo:



Será que a deputada pretende tornar a vida ainda mais difícil às (outras) mulheres e aos embriões que hão-de ser filhos indesejados à força? Pretende ignorar os números do aborto clandestino? Não sabe ela que, mesmo contra a lei, cada uma faz o que entende? Ignora o que é o livre arbítrio?
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Má sorte nascer mulher.

01 dezembro 2006

O segredo



Agora que foi marcado o referendo acerca da IVG, era boa altura para voltarmos a ver a "História de um Segredo", documentário de Mariana Otero sobre a morte de sua mãe.
Quem o mostrará?

16 novembro 2006

Direito à vida

Pelo direito à vida das mulheres, aqui vai um link para um documentário histórico: http://gloriafacil.blogspot.com/2006/11/maaaaaaiiiiis-uma-entrevista-histrica.html

16 outubro 2005

As activistas passivas


O documentário Sereias de Dina Campos Lopes acompanha a viagem do barco Borndiep que, em Setembro de 2004, tentou chegar a Portugal para defender a legalização do aborto seguro. As activistas da organização Women on Waves preparam a sua viagem sem publicitar (na internet) dados precisos sobre datas ou destino final, mas isso não evita que o barco seja detido antes de entrar em águas portuguesas. Foram gravadas as conversas telefónicas com as autoridades portuguesas e, perante a negativa, as sereias ficam a banhos no alto mar, sempre vigiadas a distância por um barco militar que se aproxima apenas para mandar piropos quando elas vão ao banho em biquini.

Outras activistas vieram não por mar mas por ar e assim podemos perceber que há movimentações políticas em terra – uma pequena manifestação, uma conferência de imprensa - que procuram pressionar as autoridades. Há ainda uma delegação de deputados ao barco, que, na pessoa de Francisco Louçã, pede, por telefone, uma explicação para a não-autorização de aportar. Perante uma resposta definitiva - não têm autorização porque não têm autorização - e um comentário brejeiro dirigido à deputada Odete Santos, a delegação nada mais pode fazer. No mar, as sereias limitam-se a ouvir na televisão as declarações inflamadas do ministro da defesa Paulo Portas, cuja gestualidade expressiva suplanta as barreiras linguísticas e que, apesar do tom trágico que no contexto parecia ter, pôs a plateia da Culturgest a rir às gargalhadas. O PM Santana Lopes também aparece a dizer que Portugal é um país de liberdade.

Em contraponto, as sereias filmam-se a si próprias, fazendo depoimentos auto-reflexivos, numa incompreensão do que passa em terra. O que ressalta deste confronto é a sua visão de Portugal como uma república das bananas – o que não deixa de ser verdade – onde as mulheres não têm direito à escolha e à autodeterminação. Na conferência final, uma activista estrangeira pinta um quadro pavoroso em que as mulheres sem meios monetários suficientes praticam abortos com agulhas de tricô. Na realidade, hoje praticam-se já outros métodos – embora clandestinos e com sequelas equivalentes àquele outro.

A vinda do “barco do aborto” teve não só um enorme efeito mediático – a que a realizadora intencionalmente fugiu – como permitiu que finalmente se falasse e se escrevesse sobre os métodos que se usam para provocar quimicamente o aborto - assunto nunca antes abordado publicamente. Na prática, passou-se em terra muito mais do que as activistas no mar puderam presenciar.

O filme, por opção, omite os efeitos desta acção, concentrando-se nos seus protagonistas e no seu sentimento de impotência. O tom é quase confessional e centrado em perspectivas individuais. Inicialmente imbuídas de um espírito de “missão”, o de esclarecer as mulheres portuguesas, mas sem quererem ser “arrogantes”. No final, admitindo o falhanço dos seus objectivos e procurando aceitar que não podem impor a sua perspectiva às mulheres portuguesas porque Portugal não está preparado para isso e está no seu direito de se governar à sua maneira.

Falam disto como quem fala de um país árabe onde as mulheres escondidas nas suas burkas não queiram ser libertadas. O paternalismo e o desconhecimento são evidentes. Cometem o erro involuntário de supor que um governo autocrático representa uma vontade popular generalizada. O filme, sancionando esta visão, não procura conhecer o outro lado do espelho: a realidade do problema que a todos preocupa, ou mesmo o impacto que o evento teve na opinião pública, afinal seu principal mérito e, aliás, contributo para o desgaste rápido do governo ultradireitista que tínhamos.

Usando sobretudo material vídeo amador, este documentário aparece como o filme possível feito a partir dos registos recolhidos ad hoc. E sente-se uma falta de coesão que uma preparação prévia e uma abordagem intencional dos factos que lhe teria dado.

(visto ontem no DocLisboa)

13 outubro 2005

Como é diferente o amor em Portugal*


Todos os filmes têm algo de universal: aquilo que é humano, aquilo que vem pela linguagem das imagens, e aquilo que é a força do seu referente real. Mas há aspectos do real dos filmes que vistos a distância são pouco mais que exóticos, e outros que fazem sentido apenas para quem conhece bem o contexto.

O meu documentário Doutor Estranho Amor faz sentido aqui e agora como um filme sobre educação sexual – mas duvido que seja significativo noutras partes da Europa, a não ser como um sinal do nosso subdesenvolvimento cultural.

Não sei se noutros países europeus lhes interessa discutir estratégias de prevenção da SIDA, visto que desde há 15 anos têm tido bons resultados na diminuição da taxa de infecção, ao contrário de Portugal onde esta tem subido alarmantemente (ver abaixo), presumo que por falta de informação, medidas de prevenção desadequadas, iliteracia, etc.

A Irlanda, onde o aborto é também proibido, ou outros países mais a sul ou mais a leste, teriam algum benefício a tirar deste filme? Não sei se aí as pessoas falam de sexo com os mesmos eufemismos que cá se usam. Nem sei se nesses sítios haverá meios para exibição de documentários feitos em países ricos onde há escolas modernas bem equipadas e políticas adaptadas a realidades bem diferentes.

Há filmes que são feitos para interpelar a realidade onde nascem. Tão só. Essa realidade é aquela em que um primeiro-ministro socialista extinguiu, em Junho passado, a Comissão Nacional de Luta Contra a SIDA.

Se não acreditam, vão ver:
http://jn.sapo.pt/2005/06/24/sociedade/extinta_comissao_luta_contra_a_sida.html http://bichos-carpinteiros.blogspot.com/2005/06/extinguir-coisas-fundamentais.html
http://gatportugal.blogspot.com/2005/06/extinta-comisso-de-luta-contra-sida.html

* Júlio Dantas dixit