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16 setembro 2006

Festivais



Após dois meses de inactividade, reabriu a época dos festivais e ciclos de cinema e eu talvez volte a escrever aqui. Enquanto isso, e a título de auto-promoção, posso anunciar que o documentário Doutor Estranho Amor será exibido no Festival de Cinema Gay e Lésbico de Lisboa na próxima quinta-feira, 21 de Setembro, às 15h30 no cinema Quarteto.

Segue-se a Semana do Cinema Espanhol, depois o ciclo Figuras da Dança no Cinema, depois a Festa do Cinema Francês, depois o DocLisboa...

05 abril 2006

Meta-log

Os blogues, na sua novidade recente, são um fenómeno que suscita inúmeras reflexões sobre a sua natureza, como tem vindo a fazer José Carlos Abrantes, nos debates Falar de Blogues, organizados na Livraria Almedina. Aliás, quase todos os blogues fazem uma meta-reflexão de propósitos, orientações e motivações, seja no cabeçalho, seja nos posts fundadores. Nunca o fiz aqui, mas, depois ter sido convidada para aquele evento, proporcionou-se a ocasião. Apesar da falta de definição expressa, este blogue enquadra-se no género “temático”, tão claro surge para quem o visita que o seu assunto principal é o documentário.

A razão por que decidi dar-lhe início foi tão de ímpeto - de um dia para o outro – que é difícil explicá-la senão como uma urgência pouco ponderada. Treinei-me, ainda em fase experimental e incógnita, durante uma semana, mas depois já não podia voltar atrás, tinha que vencer o meu próprio desafio. Foi nesse período de formação nebuloso, que lhe encontrei a forma e se autodefiniu com alguma clareza o significado dos sufixos tão vagos como “doc” e “log”. Ter encontrado essa forma permitiu-me continuar numa linha editorial já sem grandes oscilações.

Com essa definição temática ou, melhor, territorial, também procurava evitar a dispersão, o falar à toa (não me importo de o fazer, desde que não fique escrito) ou a deriva inconsequente. No entanto, esta convergência temática é aparente, porque como cada documentário fala sempre de outros assuntos, acabei a dar opiniões sobre coisas de que pouco sei (saúde mental, política, etc.). Mas, se o faço, é afinal porque a experiência que um documentário oferece nos possibilita esse aprofundamento de um assunto que não era próximo.

Por outro lado, desejava encontrar diálogo (respostas, comentários ou apenas leitores) numa área em que sou espectadora assídua – o documentário – e em que trabalho. Iludi-me nessa expectativa: o diálogo propiciado pelos blogues do género "conversa-de-café" é muito mais vivo do que aquele que os meus textos construídos podem suscitar. Será difícil discuti-los ou comentá-los, sem que isso obrigue o interlocutor a dedicar-lhe horas de escrita, na condição prévia de ter visto os mesmo filmes... Apesar de tudo, a polémica aconteceu com o blogue Ainda não começámos a pensar: uma boa polémica que nos obrigou a pensar.

Ao fim de mês e meio de postagens diárias, por auto-imposição, percebi que tinha poucos leitores, poucas respostas, logo, poucas obrigações. Abrandei a actividade e passei a escrever só se me apetecer, o que também é uma forma de evitar contribuir para o lixo universal e minorar a inconsequência. Aliás, para controlar o factor emocional desse apetite, escrevo num dia mas publico só no seguinte, depois de rever e corrigir o texto, segundo uma velha regra de uma bisavó: “quando receberes uma carta, responde logo, mas manda só no dia seguinte”.

Com tudo isto, ganhei muito: o exercício permanente da escrita; a reflexão sobre documentário, cinema, video-arte, etc. Consegui ainda superar os dilemas de me expor pessoalmente e encontrei um certo equilíbrio em moderar a crítica sem perder a opinião. Porém, às vezes, não resisto a fugir ao meu espartilho, quando um assunto me incomoda demais (por exemplo, as sondagens presidenciais) ou me interessa muito... Outras vezes, vigora a lei universal do menor esforço: no mês de Março só escrevi 3 vezes. Peço desculpa aos visitantes habituais, pois nada é mais frustante na blogosfera que andar a bater às portas e encontrar blogues murchos. Mas o leitor comodista também tem obrigações: se há falta de estímulo o bloguista torna-se preguiçoso.

O blogue é – afinal - o pretexto que me faltava para poder escrever. Dantes escrever um artigo de opinião era uma acção altamente motivada: tinha que haver onde publicar, ou era preciso inventar jornais, organizar, reunir, imprimir, distribuir, etc. Hoje basta a vontade e o pretexto/o meio. Mc Luhan continua a ter razão: o meio é a mensagem. Este novo meio – o blogue - é o nosso pretexto para comunicar, tal como os cafés de outras épocas e as tertúlias. Parece que não sabemos, os humanos, senão comunicar, mas comunicamos diferentemente conforme o meio. Assim, já ninguém é obrigado a escrever para gaveta, ou sequer para a boa vontade dos amigos. Hoje acabou-se o complexo de gaveta – ou o complexo de mansarda de Álvaro de Campos:

«Não, não creio em mim.
(...)
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
(...)
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
(...)
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.»

02 dezembro 2005

A crítica do olhar



Todos os filmes, e particularmente os documentários, ganham em ser discutidos, como aliás é prática corrente nos festivais. Esse debate de ideias que se sucede ao primeiro olhar, permite reflectir melhor sobre o filme, em vez de o arquivar imediatamente numa gaveta obscura da memória.

No debate que se seguiu à projecção do meu documentário Doutor Estranho Amor, levantaram-se várias divergências. Onde uns vêem desigualdade social, outros vêem integração escolar. Onde uns vêem um percurso de aproximação entre formadores e formandos, outros vêem uma fragilidade na explicitação de objectivos. Onde uns vêem uma atitude ríspida do professor, outros vêem a indisciplina dos alunos. Onde uns vêem uma turma de rapazes apaixonados por uma rapariga, outros vêem uma rapariga demasiado sedutora. Onde uns vêem o esforço e a paciência dos professores, outros acham-nos culpados pelo analfabetismo dos alunos. Outros, extrapolando, vêem um sistema de ensino em causa, um país em ruptura, uma democracia em risco. Inventar é livre.

O mais interessante é que todos têm razão. E as coisas são muito menos claras do que parecem. Num gesto de cabeça sobre um ombro de rapariga, uns vêem a ternura do rapaz, outros reparam no constrangimento dela, outros ainda encontram a representação da distância que vai entre o que diz e o que se mostra. O que só demonstra que a situação é complexa e ambígua. Não resulta daqui uma posição crítica ou ideológica evidente. Pelo contrário, a coexistência de pontos de vista diferentes é que vem propiciar a discussão colectiva. O filme, assim, é também uma forma de intervenção nesse social.

Se fosse um documentário que tivesse como intenção promover um certo projecto educativo, seria um chamado filme institucional. Se fosse dirigido por uma voz off, seria possivelmente um documentário de estilo televisivo, com uma mensagem explícita de reforma social. Em qualquer dos casos, o espectador era suposto aderir e anuir. Sendo um documentário livre desses constrangimentos exteriores ou incorporados, aceita todas as interpretações e pede ao espectador uma reflexão própria.

De todas estas opiniões divergentes, o que é que sobra do “olhar pessoal” do realizador? A possibilidade de revelar as contradições inerentes ao real - em vez de revelar convicções pessoais. Este não é um filme de opinião, portanto. É um documentário de observação. Tenho a minha opinião, claro, mas vale tanto como a de qualquer outro espectador do filme. Prefiro até não a manifestar antecipadamente para não condicionar a leitura individual do filme, que, sendo um documentário, facilmente resvala para uma leitura do real preexistente.

(Porque em documentário há sempre uma realidade que suscita esse olhar. Ao contrário da ficção, onde o olhar é que suscita a criação de um real.)

13 outubro 2005

Como é diferente o amor em Portugal*


Todos os filmes têm algo de universal: aquilo que é humano, aquilo que vem pela linguagem das imagens, e aquilo que é a força do seu referente real. Mas há aspectos do real dos filmes que vistos a distância são pouco mais que exóticos, e outros que fazem sentido apenas para quem conhece bem o contexto.

O meu documentário Doutor Estranho Amor faz sentido aqui e agora como um filme sobre educação sexual – mas duvido que seja significativo noutras partes da Europa, a não ser como um sinal do nosso subdesenvolvimento cultural.

Não sei se noutros países europeus lhes interessa discutir estratégias de prevenção da SIDA, visto que desde há 15 anos têm tido bons resultados na diminuição da taxa de infecção, ao contrário de Portugal onde esta tem subido alarmantemente (ver abaixo), presumo que por falta de informação, medidas de prevenção desadequadas, iliteracia, etc.

A Irlanda, onde o aborto é também proibido, ou outros países mais a sul ou mais a leste, teriam algum benefício a tirar deste filme? Não sei se aí as pessoas falam de sexo com os mesmos eufemismos que cá se usam. Nem sei se nesses sítios haverá meios para exibição de documentários feitos em países ricos onde há escolas modernas bem equipadas e políticas adaptadas a realidades bem diferentes.

Há filmes que são feitos para interpelar a realidade onde nascem. Tão só. Essa realidade é aquela em que um primeiro-ministro socialista extinguiu, em Junho passado, a Comissão Nacional de Luta Contra a SIDA.

Se não acreditam, vão ver:
http://jn.sapo.pt/2005/06/24/sociedade/extinta_comissao_luta_contra_a_sida.html http://bichos-carpinteiros.blogspot.com/2005/06/extinguir-coisas-fundamentais.html
http://gatportugal.blogspot.com/2005/06/extinta-comisso-de-luta-contra-sida.html

* Júlio Dantas dixit


30 setembro 2005

A não-inscrição

Ainda estou chocada por o meu documentário não ter sido aceite no DocLisboa, apesar de terem passado umas semanas desde que o soube. Não julgo que o meu filme fosse melhor que os demais escolhidos, mas creio que a sua oportunidade hic et nunc seria a melhor razão para não ter sido posto de lado. Foi uma oportunidade perdida para que um público alargado e heterogéneo pudesse ver e reflectir sobre um assunto de que se fala tanto desde há meses: a educação sexual nas escolas. Que o comité de selecção tenha descartado este filme, parece-me um erro enorme e uma injustiça – para com o público.

Não quero mostrar o meu filme por afirmação pessoal. Para mim, fazer documentários é um acto altruísta dirigido aos outros com interesse e dedicação. Os 50 ou 60 realizadores cujos filmes foram rejeitados sentirão possivelmente o mesmo. Mas não posso eu falar por eles. Nem posso sequer comparar-me aos que foram seleccionados. Quando se faz um filme, acredita-se nele. Se não se acreditasse, não seria possível arrostar as sucessivas dificuldades e esforços a que ele obriga. E ele obriga-me a defendê-lo até que outros o possam ver.

Nada no meu trabalho é arbitrário (embora beneficie às vezes de algumas casualidades). Pesquisei e escrevi várias vezes este projecto de filme, fui a dois concursos do ICAM, concorri a pitchings e instituições, filmei por iniciativa própria, ganhei um apoio financeiro, prestei contas rigorosas e falta-me mostrar o que fiz. Quem deve julgar é o público, não uns iluminados por ele.
Assim, considero que o trabalho de um júri de pré-selecção - que nem sequer se assume nominalmente – também não pode ser arbitrário. Deve ser justificado e público. Porque é muito maior a responsabilidade de excluir filmes que a de premiá-los entre uma dúzia de escolhidos.

A pergunta “para onde vai o documentário português?”, que intitula a secção de filmes portugueses do DocLisboa, soa-me retórica ou pretensiosa. Que suposto rumo é esse que será dado a ver? Que critérios orientaram uma selecção tão estreita e justificaram a exclusão dos demais filmes? Um critério de representatividade? Um critério estético? Político? Subjectivo? Quem definiu e ponderou sobre os caminhos do documentário actual? A direcção do festival e os seleccionadores nacionais têm a obrigação de justificar as suas opções perante o público e os financiadores públicos.

Afortunadamente, a mesma Apordoc (que organiza o DocLisboa) teve a iniciativa de criar uma outra mostra de documentário nacional – o Panorama – que promete no mínimo mostrar o refugo do DocLisboa. Muitos filmes poderão sair da invisibilidade, que é o seu maior drama. Porque o objectivo primeiro de qualquer filme é ser visto.

Recebi entretanto avisos sobre as inscrições para o Panorama, um deles dirigido nominalmente e pedindo-me filmes específicos de acordo com as informações disponíveis no ICAM. Só estranhei duas coisas. Primeiro: se lá na Apordoc já têm cassetes de 2 filmes meus recusados nos DocLisboas, terei que enviá-los de novo? Segundo: porque é que um convite individualizado não vem assinado? Quem se responsabilizará pela próxima selecção? Quem não prestará contas? Quem dirige? Os mesmos, outros? Não se sabe, visto que não se assinam, o que eu acho extraordinário. Tratam-se a si mesmos como instituição ou escondem-se atrás dela?

29 setembro 2005

A realidade inverosímil


O meu interesse maior pelo documentário vem da noção de que muitas vezes a realidade ultrapassa a ficção. A realidade é múltipla, polimórfica, a várias vozes. A ficção é pessoal e unívoca. A realidade é muito mais equívoca. Mas, tal como o feitiço e o feiticeiro, às vezes a verdade vira-se contra o verdadeiro e o real contra o realizador.

O meu último filme, que só alguns ainda viram, tem provocado nos seus poucos espectadores uma dúvida incontornável. É que há cenas que, por parecerem inverosímeis, custa às pessoas aceitar que são reais. Custa-lhes pelo menos não ficar na dúvida, quando vêem aparecer um coquetel completamente banhado em luz vermelha e a música captada directamente a parecer posta de propósito para genérico do filme. Também noutras cenas de escola, a música parece escolhida para comentar as situações, mas ela foi simplesmente a selecção musical que os alunos fizeram naquele momento.

Creio mesmo que foi esse equívoco estilístico que motivou a recusa do meu documentário Doutor Estranho Amor no DocLisboa 2005. Também esta notícia foi para mim inverosímil e não consigo ainda compreender por que o excluíram, pois, embora saiba que a selecção está condicionada a um calendário limitado, o meu filme tem tudo para ser oportuno e bem aceite.

É o primeiro documentário feito em Portugal sobre o tema da educação sexual, que muita polémica tem alimentado nos últimos meses na opinião pública. É um filme político porque se aproxima um referendo sobre o aborto, situação real mas inverosímil segundo os padrões de toda Europa. (O DocLisboa assumiu no ano anterior essencialmente como um festival político. Ou deixou de o ser?) É um filme coeso, com situações muito interessantes, momentos fortes, personagens afirmativas.

Por último, este filme é urgente, porque há um tabu na nossa sociedade, não apenas em relação à sexualidade, mas sobretudo quanto a falar-se de SIDA, objectivo último da experiência de voluntariado que o documentário acompanha. A taxa de SIDA (número de novos casos por ano) em Portugal é a maior da Europa. Talvez isso não impressione ninguém, habituados que estamos a ocupar as margens estatísticas. Mas se olharmos o gráfico abaixo, podemos perceber como este problema é grave e tem sido escamoteado e ignorado – o que também é inacreditável.

Por último, este filme é urgente, porque há um tabu na nossa sociedade, não apenas em relação à sexualidade, mas sobretudo quanto a falar-se de SIDA, objectivo último da experiência de voluntariado que o documentário acompanha. A taxa de SIDA (número de novos casos por ano) em Portugal é a maior da Europa. Talvez isso não impressione ninguém, habituados que estamos a ocupar as margens estatísticas. Mas se olharmos o gráfico abaixo, podemos perceber como este problema é grave e tem sido escamoteado e ignorado – o que também é inacreditável.


Taxa de incidência anual por milhão de habitantes. Fonte: Abraço

Portugal apresenta a mais alta taxa de incidência (número de novos casos) da Europa de infecção pelo VIH - principalmente na faixa etária dos jovens – taxa que tem vindo a aumentar nos últimos anos, ao contrário da tendência europeia e contrastando especialmente com evolução de Espanha, França e Itália, países que haviam iniciado a década de 90 com valores mais desfavoráveis do que Portugal e que conseguem uma considerável melhoria no final da década.

“Segundo um estudo do Eurostat, divulgado a 10 de Setembro de 2002, Portugal é o único país da União Europeia onde se tem registado um aumento do número de infectados com o VIH e apresenta uma taxa de incidência (número de casos por milhão de habitantes) cinco vezes superior à média da comunidade. No 1º semestre de 2004 foram notificados 1515 novos casos de infecção pelo HIV.” (http://www.roche.pt/sida/estatisticas/portugal.cfm

Outros dados em: http://www.aidscongress.net/article.php?id_comunicacao=248

21 setembro 2005

Esta máquina


(Aos meus três leitores)

Os papéis cansam. Os computadores cansam. O calor cansa. O dia cansa. O trabalho cansa. A noite descansa. A frescura alenta. O livro liberta. A burocracia não tem remédio. As instituições humanas, sabiamente edificadas por séculos, são perfeitas para ocupar os espaços livres da existência de quemquer acaso nascido neste sistema maravilhoso apalmeirado com surpresas postais das finanças, contas de tvcabo e mensagens de satélite com promoções de GPS XPTO UHT RCV DTS E ETC.

19 setembro 2005

As imagens cansam

Vivemos atacados de imagens por todos os lados, imagens fortes, impositivas, quase todas carregadas de mensagens impressas, e outras já tornadas assignificantes pela sua cadência alucinada e indiferente. Distinguir e seleccionar tornou-se um acto automático. As imagens são uma segunda natureza.

Comprei uma máquina fotográfica digital e passei a produzir cerca de mil fotos por mês. Faço o que sempre desejei fazer, mas não podia, ou porque saía caro, ou porque a máquina antiga pesava demais e não cabia nos bolsos. As imagens são a minha segunda natureza. Mas evito o excesso, porque sinto que os limites – exteriores ou interiores - é que permitem dar valor a uma imagem.

No verão passei uma semana sozinha numa aldeia do norte. Estive a filmar, mas estive, antes de mais, a viver e a perceber como filmar. Citadina por condição, nunca tinha percebido o que é viver e estar num sítio onde tudo se passa, não direi mais devagar, mas mais espaçadamente. Onde cada carro que vem ou vai, cada pessoa que sai de uma porta ou atravessa a rua, cada nuvem que passa, cada movimento, cada gesto, tem um tempo, um percurso, um espaço, um sentido, e tudo se integra, sem haver acumulações nem engarrafamentos, no todo orgânico da existência.

Passei a ver de outra forma, como fazem os aldeãos quando o nosso carro atravessa a sua aldeia, que nos olham desde que aparecemos à esquerda até que desaparecemos à direita do seu campo visual. Habituei-me também a seguir atentamente quem chega e quem parte. Apenas porque todos esses acontecimentos adquiriam imenso significado para a minha descoberta daquele lugar. Faziam parte da sua vida e tinham repercussões imediatas. Quando fosse ao café, alguém estaria a falar de quem ali esteve antes, do que contou e disse e quem era. Assim se constrói um mundo. A capacidade de contemplar uma acção na sua totalidade tornou-se ali o meu método de filmar. Aprendi a filmar pouco, mas a escolher melhor.

16 setembro 2005

Missão cumprida

Os primeiros a ver um documentário acabado são, por regra, os seus participantes. Assim fui mostrar um filme agora concluído aos seus actantes, os alunos e professores que participaram num programa piloto de educação sexual. Passaram dois anos já desde que os filmei e, portanto, revê-los e reverem-se foi também um reencontro. A euforia de se reconhecer em ecrã grande, ou a surpresa de não se conhecer de um ponto de vista alheio, gera sempre risadas e comentários que por vezes abafam a audição mesma do filme. Neste caso, a turbulência na plateia era ainda maior que a da projecção.

Para mim - que durante mais de meio ano convivi diariamente com o material filmado, que vi e revi e ponderei cada gesto, cada personagem, cada acção - foi a sensação estranha de ver em carne e osso os meus heróis de televisão e de os conhecer quase melhor do que eles entre si. Reconheço-lhes as vozes a distância, conheço-lhes os gostos, as fraquezas, os risos, os trejeitos – o seu retrato humano e analítico. E, apesar de se crescer muito dos 16 aos 18 anos, eles são ainda os mesmos. Sinto-me tão próxima deles quanto eles me desconhecem. Porque eu estive sempre silenciosamente atrás da câmara observando as suas interacções, eu para eles quase não existo. Quando me vim embora e os vi a todos juntos no café, senti a alegria de os ter de novo reunido e percebi uma mágoa em mim por, estando tão perto deles, estar tão distante. Meti-me à auto-estrada ainda em alvoroço. O poder do filme de oferecer uma hipótese de auto-reflexão aos seus sujeitos e de organizar uma experiência de vida deixa-me quase sem palavras. E a eles? (Mas o filme não é nem para mim nem para eles, é ainda para outros.)

Esta sessão solene tem também um objectivo claro: saber se há alguma coisa no documentário que se desagrade aos seus participantes, que magoe a sua imagem. Desta vez não tive problemas com autorizações. Funcionou a relação franca e a confiança pessoal. E mesmo algumas cenas mais duras, mais do que fragilizar, valorizam os seus personagens. As regras de produção de um documentário mandam que se obtenham autorizações dos participantes previamente, para assegurar que não haverá problemas como o que tive no ano passado (ver abaixo). Para quem faz produção independente – e pega na câmara e vai à caça sozinha - é difícil puxar da caneta e fazer as pessoas assinar um papel, sem instituir nesse acto a desconfiança. Eu prefiro, correndo riscos, pedir às pessoas que aprovem o trabalho na sua forma acabada. Acho isso decente.

11 setembro 2005

Do Grande Irmão à Guerra no Iraque

Quando em 1991 comecei a fazer documentários descobri a facilidade com que todas as pessoas (as crianças mais, os adultos também) se esqueciam de estarem a ser filmadas e agiam com total naturalidade, facto que frequentemente o público de documentário indaga junto dos realizadores: como conseguiu filmar sem que as pessoas parecessem importar-se? A verdade é que, como há muitos anos explicou Frederic Wiseman na Cinemateca, após os momentos iniciais, é a naturalidade que domina, porque ainda que as pessoas se sintam pouco à vontade, o papel que melhor sabem representar é o seu próprio. E daí vem a verdade que passa para o filme. Nessa época, as pessoas ainda posavam para câmara como para uma fotografia e no fim perguntavam "já está?"

Em 1993 ou 94, apareceram as televisões privadas e uma nova forma de televisão do real que se desloca a toda a parte veio reavivar o conceito de "país real". Cada vez que filmava na rua (com a minha câmara amadora), as pessoas vinham perguntar se era para SIC. Se fossem crianças, faziam fitas e brincavam, mas uma vez que não era para SIC, nem ia aparecer na TV, logo se desinteressavam. Já era mais difícil uma câmara passar despercebida.

Em 1999 apareceu o concurso Big Brother - que é duvidoso que o país real tenha percebido que se referia ao Grande Irmão do livro de Orwell - e as pessoas começaram a tomar consciência de que o real pode ser manipulado a desfavor dos seus actores. O crescimento imparável de câmaras de vigilância, não apenas das que são visíveis e assinaladas nos bancos, mas também das que estão escondidas atrás da prateleira dos cornflakes em pequenas mercearias de bairro, introduziu a noção desconfortável de que a imagem de cada um é passível de ser apropriada.

Depois veio o 11/9 e a paranóia da da suspeita e da vigilância. Lá para 2003(?) chegaram os fantásticos telemóveis fotográficos que tornam fácil e discreto qualquer um fotografar qualquer outro. E a guerra no Iraque. Foi nesse período que fui filmar algumas actividades de expressão artística numa escolinha primária de ambiente familiar. As crianças, sugestionadas pelas notícias da actualidade, quiseram fazer uma história (e um filme de animação) sobre a guerra no Iraque que então decorria nos ecrãs. Portaram-se muito bem nas aulas, mas decidiram acabar com a América. O filme só foi montado um ano depois e avisei então os meninos e as famílias de que estava concluído. Não houve objecções, até que apareceu na televisão um anúncio do DocLisboa que mostrava breves momentos do meu filme. Uma mãe indignada telefonou-me a pedir satisfações sobre os 2 segundos em que aparecia a filha dela: "A minha filha anda na rua sozinha, não posso permitir, e o assunto que é!" Assim foi retirado o anúncio.

Hoje, acho cada vez mais difícil filmar as pessoas. Todas se retraiem um pouco e desconfiam. Estabelecer que existe uma ética do documentarista que difere absolutamente da falta de ética do televisista ou do vizinho em frente é muito difícil. As pessoas perderam a inocência. Inúmeras vezes dizem que não querem ser filmadas e eu deixei de me sentir confortável na pele de documentarista. Chega a apetecer às vezes filmar nas costas das pessoas um filme sobre as costas das pessoas, como no caso da fotografia abaixo daquele arrumador tão demasiado consciente do seu papel.

Como dizia a advertência inicial ao filme sobre Lopes-Graça (abaixo referido), "há no Brasil 3 três raças de índios" (sic): uns que fogem das câmaras com medo de lhes ser roubada a alma; outros que desejam muito ser fotografados e posam insistentemente; outros que fazem de conta que não está ali câmara nenhuma e se comportam como na vida normal.