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18 junho 2007

A graça dos insultos



Prado Coelho, hoje no Público, cita a famigerada DREN: "Sei muito bem distinguir entre o que é uma graça e um insulto." Ora, exactamente, vejamos qual a diferença entre uma coisa e outra. Um insulto é uma acusação feita directamente à pessoa alvejada, ou na sua cara, de forma a ser sentida como ofensiva, ou em situação pública, de modo a poder ser reportada ao próprio ou a ofender os seus amigos, apoiantes ou afectos. Uma graça distingue-se do insulto porque, não sendo dita na presença do próprio, não tem consequências ofensivas para o alvo. É o que acontece todos os dias e a toda a hora quando apelidamos de estúpidos, cabotinos, medíocres, filhos da mãe, etc., aqueles que bem nos apetece, mas que sabemos não irão tomar conhecimento da má-língua feita nas suas costas. Agora se alguém de má vontade for fazer queixinhas por sms! (lembro-me de como aprendi no contexto social da escola que pior que fazer um disparate era fazer queixinhas, no tempo em que a associação às denúncias pidescas ainda estava fresca) e tornar público o que foi dito em ambiente reservado - esse, o delator, é que está a transformar uma graça num insulto, é ele o culpado, o responsável por transformar uma "boca" num assunto público. Isto independentemente do que quer que o professor Charrua tenha dito, que aqui não interessa nada.

02 junho 2007

A santificação



Manoel de Oliveira será talvez o primeiro realizador a receber tal distinção: "cineasta do Sagrado"*. O júri do Secretariado Católico Para a Cultura destaca os filmes Acto da Primavera, Le Soulier de Satin, O Meu Caso e Palavra e Utopia. Mas outros há, mais iconoclastas talvez - O Passado e o Presente, pela ridicularização do sagrado matrimónio; ou Benilde ou a Virgem Mãe, desfazendo em perversidade o dogma da imaculada concepção; ou O Convento, habitado pela disputa entre Deus e Satanás - que se prestam a leituras ambivalentes, sem deixarem, claro está, de pertencer ao "percurso de um criador extraordinário, que sempre buscou, a partir do elemento espiritual, alargar a reflexão acerca da condição humana".

Como dizia João César Monteiro, "Manuel de Oliveira, no contexto português, faz parte da pequena minoria de cineastas católicos (os outros são Paulo Rocha e, numa escala bem modesta, o autor destas linhas) para quem o acto de filmar implica a consciência de uma transgressão. Filmar é uma violência do olhar, uma profanação do real que tem por objectivo a restituição de uma imagem do sagrado, no sentido que Roger Caillois dá à palavra. Ora essa imagem só pode ser traduzida em termos de arte, no que isso pressupõe de criação profundamente lúdica e profundamente ligada a um carácter religioso e primitivo."** Ou aquilo que o SCPC cita como "a nossa insaciável fome de Deus".***

* Público de 02 Junho 2007, p. 12.
**João César Monteiro, "Um necrofilme português", Diário de Lisboa (Suplemento Literário), 10 Março, 1972, in Morituri te Salutant, ed. &ETC, 1974.

***José Régio

15 maio 2007

O segredo espanhol



O Público de hoje anuncia a onda de calor deste verão. Os gráficos de 2003 evidenciam as mortes por calor, mas a Espanha escapa. Qual é o segredo?

13 maio 2007

A voz dos leitores



No Público de hoje, o provedor dá voz às objecções dos leitores de Pessoa a propósito de um apócrifo publicado (como aqui também assinalei).

A Laurinda Alves, talvez para se redimir, na sexta-feira passada, enche a sua página de crónica só com poemas transcritos - o que não deixa de ser um sintoma alarmante de uma preguicite bem paga.

13 abril 2007

Fernando Peçonha



Ah ah ah aha ha. No Público de hoje, a Laurinda Alves, em dia de azar, publica um texto supostamente de Fernando Pessoa, apócrifo evidentemente. Está à vista de qualquer um que conheça a obra de Pessoa que aquele poema piroso nunca podia ser dele, e ainda por cima com pronome reflexo colocado à moda brasileira: "Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da própria história". Um idiota qualquer o escreveu, assinou com o nome célebre, pôs na internet e a lepra disseminou-se até chegar às páginas do Público!! Dá imensa vontade de rir. Pobre Pessoa, quantos poemas não terá falsificados pela net? (Basta uma breve pesquisa para avaliar a praga.)

27 março 2007

Salazar e os coronéis



Cortes da Comissão de Censura enviados por telegrama telefonado para o Jornal de Notícias:

«28/4/68. "Aniversário do presidente do Conselho. Não dizer que completou 79 anos. Major Tártaro."

4/5/68. "Serviço religioso por alma de Luther King, no templo de Santa Isabel, em Lisboa - CORTAR. Crítica do filme 'Os Corruptos' - não fazer referência a Macau. Tenente Teixeira."

12/5/68. "Notícia do Agora de que o Dr. Mário Soares foi nomeado director-delegado da CUF na Ilha de S. Tomé - CORTAR. Dr. Ornelas."

18/5/68. "Reunião da Liga Popular Monárquica em Macedo de Cavaleiros - CORTAR a designação de 'Popular'. Tenente Teixeira."

26/5/68. "Nada de comentários desagradáveis para o general De Gaulle. Coronel Saraiva."

28/5/68. "O Dr Mário Neves fez uma conferência no Rotary Clube - CORTAR: "falta de uma Escola de Jornalismo e dificuldades que os jornalistas encontram."

31/5/68. "Circular,assinada pelo vice-presidente da Censura, Dr. Alberto Alexandre P. de Ornelas: «Todos os artigos ou simples noticiários referentes a Campismo e campos de Campismo devem ser previamente enviados a este Comissão de Censura.»

4/6/68. "Não publicar fotos da viúva de Luther King e do estudante francês Cohen. Coronel Roma Torres."

6/6/68. "Coisas agressivas ou desprimorosas para os Estados Unidos - CORTAR. Tenente Teixeira." "O bispo de Carmona, D. Francisco Mata Mourisca, efectuou, na sede da UCDT, em Lisboa, uma conferência sobre o 3º congresso de Apostolado dos Leigos - CORTAR TUDO. No final do espectáculo de bailados, no Coliseu dos Recreios de Lisboa, Maurice Béjard pediu 1 minuto de silêncio pela morte de Bob Kennedy e fez considerações que o público aplaudiu - CORTAR TUDO. Coronel Saraiva."

9/6/68. Expulsão do bailarino e coreógrafo francês Maurice Béjard. Publicar, na íntegra, obrigatoriamente, a nota do SNI sobre o caso Béjard. Não fazer comentários. Nota da Guilbenkian pode sair, mas sem comentários - CORTAR ter sido suspensa a recepção que a Gulbenkian oferecia, no Castelo de S. Jorge, aos artistas da Companhia de Béjard e do Royal Ballet. Coronel Roma Torres."

3/7/68. Crise da batata e do vinho, em Oliveira do Bairro e Oliveira do Hospital - CORTAR. Tudo quanto se refira à OPUS DEI - CORTAR. Coronel Saraiva."

9/7/68. "Não dizer, em título, que Pompidou foi afastado da chefia do Governo. Major Tártaro."

17/7/68. "Português, desertor da armada, condenado à morte na Austrália. NADA. Tenente Teixeira."

19/7/68. "Está a ser julgado em Bona um antigo nazi. Foi dito no Tribunal que também devia estar ali, no banco dos réus, o actual embaixador da Alemanha em Lisboa - CORTAR TUDO. Coronel Saraiva."

20/7/68. "Preso em Celorico de Basto o delegado do procurador da república - CORTAR. Capitão Correia de Barros."

21/7/68. "Anúncio da fábrica de Coina sobre a exportação de 1 milhão de gabardines. Não dizer que vão para Rússia. Capitão Correia de Barros."

30/7/68. "Em Soutelo, uma rapariga suicidou-se depois do namorado ter seguido para Angola, mobilizado. Não falar na ida para Angola. Tenente Teixeira."

31/7/68. "Jantar oferecido pelo ministro da Economia a criadores de gado do Alentejo - CORTAR. Dr. Ornelas."

6/8/68 (23,10). "Forças rodesianas ou sul-africanas (passagem pelo nosso território) - CORTAR. Capitão Correia de Barros."

9/8/68 (22,45). "Festival Mundial de Teatro, em Nancy - CORTAR. Capitão Correia de Barros."

20/8/68 (23,25). "Transferência dos moradores do Bairro de Xangai. Não usar a expressão "bairro de lata", por causa dos estrangeiros. Coronel Saraiva."

22/8/68 (23,20). "Sobre a Checoslováquia pode dar-se tudo o que esteja autorizado. Podem publicar-se os títulos que se desejem, mas NADA de títulos agressivos ou depreciativos para a Checoslováquia. Coronel Roma Torres."

24/8/68 (23,10). "Lembramos mais uma vez que nenhuma referência pode sair ao livro de D. Hélder da Câmara. É TUDO para CORTAR. Dr. Ornelas."

28/8/68 (23,40). "Presos dois gatunos em Lisboa. Não dizer que os roubados eram turistas. Capitão Correia de Barros."

29/8/68 (23,40). Ciganos vendiam chá por whisky. Não dizer que os polícias andavam vestidos de fato-macaco. Dr. Ornelas."

2/9/68 (23,10). "Caiu muito mal a publicação, na 1ª página, dos hippies na Praia da Circunvalação. Major Tártaro."

4/9/68. "Festa dos milionários. Não mencionar a presença de membros do Governo e dos presidentes da Assembleia Nacional e da Câmara Corporativa. Pode-se falar de outras individualidades, mas sem aludir às funções que desempenham. Capitão Correia de Barros."

4/9/68. Circular 26/1968: "Todos os artigos ou simples noticiário relativos a algas marinhas devem ser enviados a estes Serviços para a sua apreciação.
A Bem na Nação,
Pelo vice-presidente da Direcção dos Serviços de Censura, António Pinheiro."

7/9/68. "Chegada a Portugal do médico alemão Dr. Fulkner - CORTAR. Capitão Correia de Barros."

8/9/68. "Dr. Salazar. Pode-se falar nas missas e na operação de urgência. Coronel Saraiva."

9/9/68 (23,15). "Não dizer que o estado de saúde do presidente do Conselho é estacionário. Técnico permanente para evitar avarias nos elevadores do Hospital - CORTAR. Uma entidade qualquer terá oferecido a Salazar duas dúzias de peras e um melão - CORTAR. Coronel Saraiva."
10/9/68. "Salazar: grupo da TV italiana. Não dizer que veio a Lisboa por causa da doença do Chefe do Governo. CORTAR a frase: "Está melhor do que nunca". Alimentação servida em tabuleiro especial - CORTAR. Medicamento vindo do estrangeiro através da TAP - CORTAR. Frase do ministro da Economia: "Não há lugar para interinidade" - CORTAR. Localização do quarto - CORTAR. Declarações da governanta D. Maria - CORTAR. Não dizer que há um médico de serviço durante a noite. Major Tártaro."

14/9/68. "Na Candeia-Bar foi preso um rapazola, que ali praticou distúrbios. Não dizer que regressou há pouco do Ultramar. Capitão Correia de Barros."

21/9/68. "O casal Patiño foi ao Hospital da Cruz Vermelha. Não falar da cor do automóvel nem do vestido da senhora. Reorganização da indústria dos lacticínios da Madeira - não falar em monopólio. Tenente Teixeira."

22/9/68. "Salazar. O título da 1ª página deve ser alterado. Em vez de continua a ser grave o estado de saúde do prof. Salazar, dizer que se mantém estacionário. Major Tártaro."

23/9/68 (23,30). "Concurso do Rei da Rádio, organizado pelo Diário de Lisboa - CORTAR. Revezamentos no Hospital da Cruz Vermelha - CORTAR. Vendedor ambulante teria prometido ir a Fátima a pé, caso Salazar se cure - CORTAR. Coronel Saraiva."

29/9/68. "Declaração do Dr. Marcelo Caetano aos jornais - CORTAR. Coronel Roma Torres." "Expulsão de dois jornalistas suecos - CORTAR. Major Tártaro."»

Retirado de Os Segredos da Censura, por César Príncipe, ed. Caminho, 1979
Foto: Salazar no caixão, imagem retirada do filme Brandos Costumes (1974) de Alberto Seixas Santos

13 março 2007

Há 35 anos



« -Tal como se encontra legislado, que perspectivas abre a nova lei de cinema?

- Há muita coisa com que não estou de acordo, como todos nós, evidentemente. Mas o que mais choca é verificar que a Lei irá proteger mais as entidades exploradoras do cinema do que aqueles que afinal o produzem. A abertura e preferência dada às co-produções parece-me também - digam o que disserem todos aqueles que no cinema apenas vêem interesses comerciais - o mais clamoroso atentado à concretização dum cinema nacional com personalidade própria. Fala-se de estruturas, infra-estruturas e mais quejandas coisas, apenas para camuflar desígnios inconfessáveis que todos bem conhecemos, conscientes como estamos de que Portugal nunca poderá ser uma oficina de cinema enlatado para consumo universal. Nem isso nos interessava nada!

Mas, não nos trará algumas coisas boas a nova Lei? Pois concerteza que sim. Se ela for cumprida nessas alíneas. Mas a melhor ajuda que ela nos poderia dar - arrisco! - seria a de construir dois cinemas, um em Lisboa e outro no Porto, para estreia dos nossos filmes, livre de taxas de exibição e distribuição, que nos levam quase a totalidade das receitas nos dois maiores centros de rentabilidade, o que quase sempre impossibilita a recuperação dos capitais investidos. Os filmes - sem discriminação - seriam ali estreados pela ordem do seu acabamento e estariam no cartaz o tempo que o público entendesse. Às salas, administradas pelo Instituto, poderia dar-se os nomes de "Paz dos Reis" no Porto e - porque não - "Leitão de Barros", em Lisboa. Quando não houvesse filmes para estrear, fazer-se-iam reposições e retrospectivas. Isso era ajudar o cinema português e dignificá-lo. (...) »

Excerto de uma entrevista a Manuel Guimarães, no Diário de Lisboa, em 1972 (data incerta).

Nota: a lei referida é a lei nº7/71 que cria o IPC, Instituto Português de Cinema, actual ICAM.
Foto: Vilarinho das Furnas, documentário de António Campos, 1971.

11 março 2007

Há 50 anos (4)



«Estrelas e bolas pretas
O critério de Roberto Nobre

A crítica por meio de bolas e estrelas foi inventada pelos Norte-Americanos como um meio prático, rápido e amorfo dos leitores, sem sequer terem o trabalho de ler, acreditarem em que uma película é boa ou má. Ora, o essencial não está na bola preta, está em saber porque foi dada. Confesso que, ao ver algumas bolas pretas de certos colegas na classificação, fico cheio de interesse de assistir aos filmes. Quando alguns não gostam, já eu sei que vou gostar pela certa. Não sucederá o mesmo ao leitor a meu respeito?

Sou dos que desejam um público consciente da razão por que aplaude ou rejeita e não um rebanho que aceita as bolas e as estrelas que eu ou qualquer outro lhe largamos. Esse sistema implica condenações e absolvições peremptórias, como num tribunal, em que o réu é julgado num número de anos, maior ou menor, conforme a culpa que lhe é, ou não, agravada. Em arte não há uma lei fixa e o génio criador torna, por vezes, defeitos em qualidades. Além disso, o sistema veda os sentidos didáctico e cultural que estão implícitos na função da crítica de espectáculos, mesmo quando feita rapidamente em jornais diários.

Em consciência, por mim, não sei, na maioria dos casos, qual a classificação que devo atribuir, pois ela tem de atender, no caso do cinema, a vários aspectos díspares, entre os quais se destacam: o tema, a sua exposição ficcionista, os valores estéticos de arte cinematográfica e o apuro técnico. Uma obra prima será a que reúne tudo isso. Uma película execrável aquela em que nada se salva. Esses pontos extremos são difíceis de indicar. Já não o são os intermédios e estes tornam-se os mais importantes. (...)

Gosto de conversar sobre filmes com o meu semelhante. Não me sinto crítico (ou juiz) de qualquer arte. Gosto de explicar as qualidades e defeitos que encontro. Ao ter de os apontar, esclareço-os perante mim próprio. O leitor, se acaso tem a coragem de me ler, discutirá mentalmente comigo os pontos de vista por mim apontados, que são uma análise e não uma classificação por bitola. Auxiliar o espectador a que examine, levá-lo a isso, julgo ser o necessário na actividade do comentador, pois tal o habituará a não aceitar o cinema como um espectáculo oco que distrai ou aborrece, e sim como uma arte que se compreende e sente, verificando-se intelectivamente o que nela há que nos leve a pensar e a sentir. Nunca, portanto, acharei eficaz um julgamento peremptório por estrelas e pontos negros que, além de ser difícil de fazer em consciência, leva a erros de interpretação por parte do leitor, uma vez que fica a desconhecer os aspectos a que damos ou retiramos o nosso aplauso. (...)

Confesso que não sei esclarecer tudo isto por meio de estrelas e bolas negras. Não vejo nisso mais do que uma curiosidade jornalística para cotejo de opiniões, de modo ao leitor verificar quais são os votos que acertam, ou não, com os seus próprios. É uma espécie de jogo, no qual também entro, quinzenalmente.»

Roberto Nobre, in Diário de Lisboa, 25 de Setembro de 1956

Foto de Moby Dick (1956) de John Huston, com Gregory Peck, filmado parcialmente nos Açores.

08 março 2007

Há 50 anos (3)



«O "Guia do Espectador"
O critério de José-Augusto França

Iniciamos hoje a publicação das notas sobre o critério dos críticos que participam em "O Guia do Espectador", com o depoimento de José Augusto França: (...) Fabricando então produtos de consumo, o cinema sujeita-se ao consumidor, aos seus gostos, ao seu nível médio de cultura. Na América, calculou-se que este nível era igual ao de uma criança de 12 anos, normalmente desenvolvida; (...)

Para o espectador-médio (que em Portugal terá entre 10 e 14 anos de idade mental) se fazem os filmes MEDIOS (**), isto é: os filmes que se subordinam a um esquema de convenções artísticas, psicológicas e morais pequeno-burguesas, procurando entretê-las com maior ou menor habilidade técnica, com mais ou menos espírito. (...) Se a sua habilidade de entretém e o seu espírito alcançam uma certa qualidade, passarei a dizer que são (**+).

Às vezes, porém, e não são poucas, ou o realizador é mentalmente mais novo que o espectador, ou o filme exagera a sua subserviência perante a plateia: lisonjeia o seu esquema mental, rebaixa-o, dá-lhe um produto insuficiente para as suas necessidades tabeladas - [direi] que é um filme MEDIOCRE (*), classificação que prefiro ao escolar "sofrível".

Outras vezes ainda, também numerosas, uma total falta de habilidade, sequer comercial, desconhecimentos, sequer técnicos, de inteligência, sequer formal (ou condições fortuitas de urgência, de encomenda, etc.), reduzem a produção à categoria de filme MAU (.), classificação que será mais clara que "sem interesse" - pois que sem interesse se apresentam também filmes Médios e os Medíocres.

Resumindo: temos só filmes MEDIOS para o espectador-médio e os filmes Inferiores (à média) que podem ser MEDIOCRES ou MAUS - todos estes sem interesse. Os Médios tanto faz vê-los como não. Os Inferiores não devem ser vistos.

No lance oposto da escala, temos os filmes Superiores (à média). São os BONS, os MUITO BONS, as OBRAS-PRIMAS.
BOM (***) será o filme que traduza qualquer inquietação, qualquer invenção, como obra plástica ou como obra de ficção específica. Que se oponha, ou pelo menos ignore o convencionalismo moral, que exponha validamente (isto é, como obra de arte) um problema psicológico ou social, sem o iludir nem fazer divulgação de pequena ciência.

Algumas vezes estas intenções ficam em intenções, são mal efectivadas. Os filmes assim, embora falhados, merecem porém destaque em relação aos Médios - a sua "família" é outra: têm interesse. Bons não são, por falta de qualidade, mas devem ser-lhes emparelhados. Classificá-los-ei então com as 3 estrelinhas dos Bons, mas separarei uma delas por um traço (**/*).

Nos filmes MUITO BONS (****) as qualidades dos Bons avantajam-se. Não há hesitações nem desequilíbrios: são filmes perfeitos, exemplares na história do cinema. São os filmes dos grandes talentos. Ou então são filmes com invenções fulgurantes, que abrem mais janelas do que portas, embora estejam longe de ser perfeitos.

OBRAS-PRIMAS (*) há poucos no Mundo. Nos sessenta anos de idade do cinema, as outras artes não terão dado mais de uma dezena, cada uma. Porque haveria o cinema de dar mais? (...)»

Diário de Lisboa, 19 de Setembro de 1956
Foto: O Pintor e a Cidade (1956) de Manuel de Oliveira

05 março 2007

Há 50 anos (2)



«PROBLEMA ACTUAL
O documentarismo de que precisamos

(...) Daqui a cinquenta anos o estudioso que então tiver a sorte de ter uma cinemateca nacional à sua disposição pedirá documentos da nossa vida, dos nossos problemas, dos anseios da sociedade portuguesa dos anos 50. O empregado dir-lhe-á com ar seráfico: "Não, não temos disso. Nos anos 50 não havia problemas, nem anseios, nem nada. Quer ver?" E mostrar-lhe-á os catálogos. O estudioso ficará rendido. "O que temos, sim, desses tempos são uns bonitos documentários da ilha da Madeira" - acrescentará o funcionário. E o outro, ansioso, lança-se para a moviola à procura da humanidade portuguesa dos anos 50. Mas só encontrará ananases e hortênsias, carros de bois com batata e os pauliteiros de Miranda. (...)»

Eurico da Costa, in Diário de Lisboa, 2 de Outubro de 1956

Foto: SNI, Imagem de Promoção ao Cinema (Col. Cinemateca Portuguesa)

03 março 2007

Há 50 anos (1)



«"Se o menino não for ao cinema, dou-lhe uma nota má!" - dirão os professores quando a Sétima Arte (num futuro próximo) entrar no domínio dos estudos escolares - por MARCEL DANY

Paris, Setembro.
Na aula, o professor disse:
- Aluno Martin: descreva os processos comparados da técnica do cómico de Molière e da de Charlie Chaplin.
O adolescente levantou-se na sua carteira e, de braços cruzados, sem uma hesitação desenvolveu o tema em três pontos.
- Muito bem! - concluiu o professor. - E agora, sr. Durand, fale-me da sugestão de Goethe nos filmes, já clássicos, "Os visitantes do Anoitecer", "A Ronda" e "Margarida da Noite".
Tais perguntas não são ainda habituais nos liceus, mas é fácil adivinhar que brevemente o serão.
O cinema começou por entrar timidamente na escola, como divertimento para os alunos mais jovens, sob a forma de desenhos animados e de "lição de coisas" sob a de documentário. Mas agora a sétima arte, tendo ao mesmo tempo um passado rico e curioso e um presente absorvente, terá um futuro um futuro prodigioso. Quem duvida que tomará um lugar oficial no ensino?
Não estamos perante uma fantasia. Um distinto professor do Liceu Voltaire, de Paris, o dr. Henri Angel, publicou há pouco um livro puramente pedagógico intitulado "Tratado de Iniciação Cinematográfica", com definições, esquemas e notas explicativas que põem o estudante ao corrente do essencial da técnica e da estética do filme. Ao lado das histórias da pintura e da música existe já a "História do Cinema", redigida com toda a seriedade científica.
No exame de bacharelato deste ano (o bacharelato em França corresponde ao diploma do ensino secundário e permite entrada no superior) um dos três temas propostos para a dissertação , prova de redacção francesa, foi o seguinte: "Um escritor contemporâneo afirma ser erro profundo adaptar um romance ao cinema. É dessa opinião?" (...)»

in jornal O Século, 13 de Setembro de 1956

Foto: Vidas sem Rumo (1956) de Manuel Guimarães

28 janeiro 2007

O cinema e o capital



“Visto um filme americano - estão vistos todos os outros. O mesmo fundo moral, a intriga anterior ligeiramente disfarçada; os artistas parecem todos gémeos, de igual estatura e com traços semelhantes, actuando sempre do mesmo modo. Tudo aquilo é em série: argumentos, realizações, processos, artistas, etc...

Quando um filme é um sucesso de bilheteira serve de modelo para dezenas de filmes semelhantes. Tal qual como na indústria de automóveis; depois de se ter estudado um tipo de carro, é reproduzido em série aos milhares.

Traíram os fins humanos, sociais e educativos duma arte utilizando os seus meios para simples especulação comercial, imprimindo no celulóide vida falsificada nos estúdios, a qual é tão funesta ao espírito e à cultura dum povo como o azeite falsificado pelo merceeiro o é ao estômago daqueles que inconscientemente o ingerem. (...)

Em vez de se estudarem temas humanos, escolhendo depois os intérpretes segundo as exigências desses temas, escrevem-se e adaptam-se histórias de propósito para esta ou aquela artista, de maneira a pôr em evidência toda a sua beleza física e todo o seu “sex-appeal”. (...)

Sendo o cinema, de todas as artes, a que maior e mais influência exerce sobre a mentalidade popular, sucede que se parte da falsa e criminosa opinião de que o espectador nada mais necessita e deseja do que saborear por um preço mínimo e confortavelmente instalado na sua cadeira, um espectáculo alegre e divertido que lhe faça esquecer as canseiras e dissabores de uma vida extenuante. E o público esquece que a sua vida é atribulada por uma péssima organização social e económica, aceitando por uma cómoda e grosseira cobardia aquela aviltante compensação que lhe oferecem.

Ora o cinema precisamente poderia, como nenhuma outra arte, apontar esses males e as suas consequências quando mais não fosse tomando como temas dominantes os múltiplos problemas que o homem defronta na sua vida sexual, na sua vida familiar, na sua vida profissional, na sua vida económica e na sua vida social. (...) »

Manoel de Oliveira, "O cinema e o capital" in revista Movimento, nº7 de 1 de Outubro de 1933
(Foto: Oliveira e José Régio)

25 outubro 2006

Medo



Subscrevo inteiramente a opinião deste leitor do Público (25-10-2006):

Medo no DocLisboa

Ontem o DocLisboa presenteou-nos com um fabuloso documentário da Inês de Medeiros. Várias senhoras falavam, sem medo, do seu apoio a Salazar, dos seus valores, da sua visão da vida. Falavam de uma forma aberta, como só uma sociedade verdadeiramente livre permite, numa conversa conduzida, por Inês de Medeiros, com tacto, equilíbrio, momentos de humor, mas sempre com um enorme respeito pela dignidade destas pessoas. (...)

Menos recomendável foi a atitude de suprimir a apresentação do documentário que devia ter aberto a sessão. De acordo com a comunicação lida no início, a curta-metragem Excursão, de Leonor Noivo, não foi transmitida por a empresa que organiza as excursões aí retratadas não a autorizar e a organização do festival ou a própria Culturgest temerem uma acção judicial.

Parece ainda haver alguns Salazares de vão de escada que assustam e metem medo a instituições que quando se encolhem se fazem pequenas. A Culturgest, apesar de ligada ao nosso maior banco, que estou certo deve ter um ou outro jurista capaz de fazer frente a um hipotético processo que, sendo tão claramente contra a liberdade de expressão (neste caso artística da Leonor Noivo), não teria dificuldade em rebater num tribunal do Portugal de hoje. A decisão dos organizadores pareceu ignorar isto, deixando o medo vencer a liberdade. Espero que, até ao fim do festival, tenham oportunidade de corrigir esta má decisão. Falem com um jurista. (...)

Manuel Caldeira Cabral
Carcavelos

27 setembro 2006

Privacidade



É isto que me anda a preocupar. Por isso transcrevo na íntegra:

JOSÉ VÍTOR MALHEIROS _ COMENTÁRIO _ in Público, 26-09-2006

1. Faça uma pesquisa no Google. Verá aparecer na parte de cima da sua página e na barra da direita uma série de links identificados pela fórmula “links patrocinados”. Estes links remetem para sites relacionados com aquilo que pesquisou e o seu aparecimento obedece às regras da publicidade. Tudo o que o anunciante tem de fazer é escolher a expressão ou expressões a que pretende associar o seu site. Uma pastelaria que pretenda anunciar no Google pode, por exemplo, escolher a expressão “chá e torradas” de forma que, sempre que alguém a escreve na caixa de pesquisa, o nome da pastelaria apareça nos links patrocinados. A tecnologia enriquece a pesquisa, pois oferece ao utilizador, para além dos resultados que satisfazem exactamente os termos da sua pesquisa, uma colecção de links relacionados que podem ser interessantes. E oferece aos anunciantes, por outro lado, um públicoalvo que já se inclui numa faixa de interessados pela sua actividade. Um casamento perfeito.

2. Abra uma conta no Gmail (o serviço gratuito de correio electrónico do Google). Verá que, ao lado da sua caixa de mail, aparece igualmente uma coluna de “links patrocinados” que, curiosamente, têm também alguma coisa a ver com o teor das suas mensagens. São também links de anunciantes que escolheram determinadas expressões e que a mesma tecnologia do Google consegue associar a determinadas mensagens. Nas suas páginas de Ajuda, o Google garante que “o Google NÃO lê a sua correspondência”. Como é que faz então? A explicação vem na linha seguinte: trata-se de “um processo totalmente automatizado”. Não há ninguém no Google a ler a sua correspondência, mas há um programa que a lê e que pesquisa os termos relevantes para poder associar a uma mensagem sobre automóveis um anúncio de gasolina e a uma declaração de amor o link de uma florista.

3. O programa secreto de escutas sem autorização judicial que a National Security Agency lançou nos Estados Unidos por ordem do Presidente George W. Bush, que monitoriza correio electrónico e telefonemas, recorre também a tecnologia semelhante. Os telefonemas são ouvidos por programas que conseguem identificar os indivíduos que incluam na mesma chamada expressões como “Bush” e “bomba”, mas não existe uma batalhão de pessoas a ouvir as chamadas. O facto permite que os defensores do programa (cuja existência só recentemente e relutantemente foi reconhecida pela Casa Branca) digam que não se trata de um programa de escutas. O programa de intercepção de comunicações Echelon, lançado pelos EUA e pela Grã-Bretanha, faz a mesma coisa a nível mundial.

4. O sociólogo espanhol e teórico da Sociedade da Informação Manuel Castells já tinha alertado para o fim da privacidade na era da Internet, mas o que sucede é que um número considerável de pessoas olha para estes excessos com resignação, como se eles fossem inerentes à tecnologia, como se a tecnologia obrigasse ao seu próprio abuso e não houvesse escolha possível no seu controlo. A ameaça terrorista, por outro lado, veio reforçar a convicção da bondade da redução das liberdades individuais quando está em causa a segurança.

5. Seja em nome do marketing (que promete adequar a oferta publicitária aos nossos desejos se permitirmos o escrutínio da nossa vida pessoal) ou da segurança (que nos jura que o escrutínio da vida pessoal dos cidadãos é essencial à identificação dos terroristas), a verdade é que a invasão da vida privada está em curso. Por ignorância, comodidade ou crença na absoluta benevolência das autoridades, os cidadãos têm permitido que essa vigilância se alargue. E, por espantoso que pareça, o facto de essa invasão estar em grande medida a ser realizada por robôs constitui um descanso para muita gente, como se os robôs não fossem os mais obedientes servidores do poder.
■ Jornalista