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20 outubro 2007

Documentário de denúncia



El Ejido - A Lei do lucro, de Jawad Rhalib, realizador marroquino, com produção belga, denuncia as condições de vida sub-humana dos trabalhadores magrebinos no sul de Espanha, em estufas de plástico que cobrem completamente a paisagem. A verdade é que o filme deixa muitas questões em aberto - muitas perguntas por responder na cabeça do espectador. E, se é evidente que tem um propósito de denúncia, fica um tanto aquém de politizar o seu assunto - como diz uma agricultora no filme: "aí já entramos em política, disso não quero falar".

É o que de certo modo o realizador faz: fala dos bairros de plástico onde vivem como porcos os imigrantes clandestinos ou não, fala da exploração, fala da segregação social e do racismo, fala da precaridade do vínculo laboral, fala do pagamento à jorna (em valores absolutos 25/30 euros, mas sem relativizar, pois não nos diz qual é o salário mínimo em Espanha), fala de activismo social perseguido (?), fala de agricultura química - só não fala de política, de leis, de medidas e sanções para defender estas pessoas de condições de escravatura.

Uma entrevista com o realizador parece destinar o filme aos marroquinos que ainda não partiram, desiludindo-os acerca do eldorado europeu. Propósito inglório, pois é evidente que o filme não será mostrado em Marrocos... Ora, o debate que este filme lança só pode ser continuado através de outros meios, através da sua emissão e discussão pública - que parece não ter acontecido ainda em Espanha (nem sequer em festivais), onde a recepção prima pelas reacções: La ley del beneficio. Enfado de los agricultores de El Ejido. e Nueva campaña contra El Ejido que desprestigia su modelo de agricultura. O filme tem sido visto noutros países em vários festivais e passou no canal de televisão Arte. Repete no Doclisboa, dia 23, às 20h30 no cinema Londres, e o debate que se lhe segue, com o realizador, poderá esclarecer muitas dúvidas.

15 julho 2007

O factor independente



Em Lisboa, ganham todos. O PS ganha sozinho a Câmara, pela primeira vez em 31 anos, disse António Costa. E diz Sócrates: é mais uma grande vitória do PS. Na verdade tiveram menos que 30% e ficaram abaixo dos dois candidatos afectos ao PSD que juntos somam 32%. Se não fosse a dissidência de Carmona, o resultado seria muito muito incerto, a favor do PSD. O PS deve-lhe a vitória. Carmona também se diz ganhador, pois confirmou no escrutínio a sua base de apoio pessoal, ignorando os interesses partidários pelos quais concorreu há dois anos e pelos quais se sentiu "traído" há 3 meses. Por outro lado, a esquerda combativa - Roseta, a CDU e o Zé/BE - juntos ganharam 5 vereadores, quase tantos como os 6 do PS ou do "PSD". Mas a CDU e Sá Fernandes mantêm os lugares que já tinham. Apenas Helena Roseta, afinal, vem roubar votos ao PS. Verificamos que bastaram dois desalinhados para estragar o equilíbrio táctico dos grandes partidos. A engrenagem agora é outra. A nova ordem política exige que saibam encontrar consensos ou maiorias.

Foto: Ao Fim da Noite (1991), de Joaquim Leitão

03 julho 2007

A cultura de merceeiro



«O presidente da administração de Serralves, Gomes Pinho, defende a extinção do Ministério da Cultura» (Público, 30 de Junho 2007). Diz que, com este “elemento quase simbólico”, quer “lançar o debate público sobre a matéria”. Curiosa pedrada de quem administra uma fundação cujo orçamento é pago pelo mesmo Ministério da Cultura a 50%. Na verdade, o “advogado e gestor” não pretende acabar com o financiamento do Estado às instituições culturais, apenas pretende alargar a privatização da cultura, cujo “serviço público” seria pago pelo estado.

Ou seja, em vez de serem os criadores a dirigir-se directamente ao MC para obterem apoios para as suas actividades, seriam os advogados e gestores da cultura a fazê-lo. Muito cómodo. Os criadores passariam a lidar portanto directamente com estes advogados de outra causa que não é certamente a mesma que a sua. Os advogados do gosto dominante, os angariadores de públicos para a cultura, que, muito oportunamente, recebem chorudos financiamentos estatais.

Ora, se existem iluminados capazes de fazer da cultura um negócio, para que há-de existir um ministério da cultura, sujeito ao escrutínio público, a contas públicas, à renovação periódica de ministros e directores de teatros e tudo o mais? Que desperdício. Entregue-se a tarefa aos burocratas da finança que eles se encarregarão, no anonimato dos seus gabinetes, de fazer valer a cultura que vale dinheiro – aquela que dá público e prestígio – e, já agora, facilitar os negócios de lavagem de dinheiro que o comércio da arte tanto ajuda. O paraíso.

Então e os concursos e as pontuações e os júris rotativos de especialistas de teatro e de dança e de cinema e de artes e de tudo o mais? Quem precisa de jurados e especialistas, quando o que interessa são os públicos? A cultura, diz ele, “tornou-se uma utility”. “Então é preciso reposicionar o Estado nisso, e ver a cultura a partir da óptica do fruidor, do consumidor”. Adeus cidadania, o direito à voz própria transforma-se em direito de consumir (pagando).

Assim, a independência face ao estado ficaria livre das “tentações – que são humanas – de imposição de gostos pessoais”, diz ele, querendo insinuar que os subsídios são dados por preferências políticas, “obviamente, porque os políticos não são santos”. Os decisores privados, esses seriam isentos. Grande falácia. Ora, é para isso mesmo que existem júris especializados, para evitar favorecimentos. De facto, só o Estado pode garantir, pela transparência das suas regras e regulamentos e legislações, a maior equidade.

Então e os artistas? Ora, que vão bater às portas e lamber as botas dos senhores poderosos, desses pseudo-mecenas que gastam o que não é seu, segundo o critério universal da sua arbitrariedade. Que se sujeitem às leis da ”concorrência internacional”. De que estará ele a falar? De cultura portuguesa? Esqueçam Portugal, agora estamos na Europa, no mundo. Como ele diz, “os talentos são muito móveis – não sei se serão tão móveis como o capital”. Brincamos? Os administradores da arte têm altas ambições para as suas cobaias, os “novos criadores” vendidos fresquinhos como as alfaces e trocados como um produto perecível de mercearia. A menos, claro, que os iluminados vejam neste e naquele talento firmado a lâmpada de Aladino dos cifrões, a estrela capaz embasbacar as massas e atrair a massa.

O problema destes gestores é a sua cultura de merceeiro, que lhes deve ser muito útil, mas que se distingue radicalmente da genuína cultura. O senhor Gomes Pinho não está a falar de cultura, senão de comércio e margens de lucro. Mas a autêntica cultura não é um negócio, nem o consumo da dita, nem um campo onde a concorrência dita as leis, como ele pretende.

A cultura é a necessidade humana de exprimir e criar segundo leis próprias. Para conseguir chegar aos outros, independentemente, muitas vezes, de obter ou não sucesso junto do público. O ideal da cultura é ser livre, gratuita, independente. A cultura é o amor do conhecimento, da descoberta, da investigação; é a invenção pura, a arte pela arte, a liberdade do gesto, a intervenção pública ou a necessidade de revolta.

Nada disto cabe na sua carteira de “programações com estabilidade”, de “contratualizar com o estado programas de cinco a dez anos com metas quantitativas e qualitativas”, de “uma política de atracção de talentos do estrangeiro”. Então, o ministério da cultura não tem como missão apoiar os criadores portugueses ou de Portugal? Para António Gomes Pinho parece que tem a missão de trazer criadores estrangeiros de prestígio para gerarem grandes movimentações de massas. É a síndroma Frank Gehry, a cultura dos novos-ricos, dos especuladores, das estrelas do poder.

O entrevistador, muito a jeito, pergunta-lhe se não gostaria de “pôr isso politicamente em prática, eventualmente num próximo governo”. Espantosa pergunta. Visto que o seu propósito é extinguir o MC e substituí-lo por financiamentos transversais a todos os ministérios – numa óptica promocional e utilitária dos objectivos desses sectores da economia – resta-lhe o tal lugar que há-de “substituir o MC, a nível de governo, por uma estrutura muito flexível junto do primeiro-ministro”. A ver se pega.

O Ministério da Cultura que tutela os museus e o património histórico, os monumentos arqueológicos, os arquivos de cinema, a memória das artes, os teatros nacionais, as orquestras e as companhias de dança, a biblioteca nacional e tudo o mais – tudo aquilo que é de todos nós, que é a nossa cultura comum – deve existir sempre para que tudo isso continue sendo património nacional.

Que vivam as fundações, mas não comam tudo. Agora querem todos ser berardos.

Imagem: Miguel Palma

18 junho 2007

A graça dos insultos



Prado Coelho, hoje no Público, cita a famigerada DREN: "Sei muito bem distinguir entre o que é uma graça e um insulto." Ora, exactamente, vejamos qual a diferença entre uma coisa e outra. Um insulto é uma acusação feita directamente à pessoa alvejada, ou na sua cara, de forma a ser sentida como ofensiva, ou em situação pública, de modo a poder ser reportada ao próprio ou a ofender os seus amigos, apoiantes ou afectos. Uma graça distingue-se do insulto porque, não sendo dita na presença do próprio, não tem consequências ofensivas para o alvo. É o que acontece todos os dias e a toda a hora quando apelidamos de estúpidos, cabotinos, medíocres, filhos da mãe, etc., aqueles que bem nos apetece, mas que sabemos não irão tomar conhecimento da má-língua feita nas suas costas. Agora se alguém de má vontade for fazer queixinhas por sms! (lembro-me de como aprendi no contexto social da escola que pior que fazer um disparate era fazer queixinhas, no tempo em que a associação às denúncias pidescas ainda estava fresca) e tornar público o que foi dito em ambiente reservado - esse, o delator, é que está a transformar uma graça num insulto, é ele o culpado, o responsável por transformar uma "boca" num assunto público. Isto independentemente do que quer que o professor Charrua tenha dito, que aqui não interessa nada.

15 maio 2007

Conflito cognitivo



Helena Roseta, a mulher-política que mais admiro e que em 30 anos de democracia foi sistematicamente posta de lado, porque "diz sempre o que pensa".
José Sá-Fernandes, em quem votei e que merece ser premiado pela excelência dos serviços prestados.
António Costa, o melhor que o PS tem.
Um autêntico quebra-cabeças. Em quem votar?

24 janeiro 2007

Pelo sim, pelo não



O movimento pelo Não atola-se cada vez mais na contradição das suas afirmações; depois de Marques Mendes, Marcelo e César das Neves, é Maria do Rosário Carneiro (deputada católica do PS, dita independente) que defende a despenalização, mas quer votar Não.

A contradição está cada vez mais explícita: "É muito curto que a simples vontade de uma pessoa possa depender da vontade de outra", diz M. Rosário Carneiro, querendo com isto significar que há uma vida que decide sobre a outra. E para os do Não, decide o embrião. Ora o mesmo argumento invertido é o que defendemos: para nós, decide a mulher.

E como realmente o embrião, como toda a gente sabe, não decide nada, o que eles querem é que a lei decida da vida de cada mulher. Em nome do embrião. E vêm novamente prometer aquilo que nunca antes os católicos do PS e do PSD fizeram, nos 9 anos desde o anterior referendo: propor “um anteprojecto de lei no sentido de não criminalizar mulheres que tenham feito abortos clandestinos”. Dá vontade de rir.

Não sei se neste atoleiro de duas causas inconciliáveis, os do Não estão involuntariamente a fazer campanha pelo Sim, ou se, pelo contrário, isso não é uma estratégia de captação dos votantes indecisos apelando àquilo que afinal é consensual: a despenalização das mulheres.

(Recorte do Público de 24-01-2007)

23 janeiro 2007

Duas causas (2)



Divididos entre duas causas está um séquito de pessoas confusas que diz Nim, ou seja, vota com uma opinião dividida ou nem sequer irá votar, por não saber resolver as suas contradições. É o caso de Marques Mendes, que, tal como o herói do filme de há cinquenta anos, é contra o aborto e é contra a prisão:

«É certo que se pode verificar um conflito de interesses entre o seu [do feto] direito à vida e o direito da mulher à sua autonomia, princípio que também merece o meu apoio. (Muito bem dito.) De facto, não se pode contestar o direito da mulher a só conceber um filho se e quando o desejar, usando da sua plena liberdade e utilizando os métodos anticoncepcionais que entender. Só que esta escolha tem de ser feita, responsavelmente, antes da concepção livre de um novo ser

Ora aí está uma escolha que é tanto responsabilidade das mulheres como dos homens. E continua: «Mas, fora das situações que a lei já consagra, o direito da mulher à sua liberdade de escolha termina quando começa o direito à vida de um novo ser humano.»

Finalmente, está aqui dito, com todas as letras: o direito da mulher à sua liberdade termina quando começa o direito à vida do embrião. É claro como a água. A liberdade da mulher acabou quando engravida. A vida da mulher conta menos que a do embrião. E mesmo que ela tenha outros planos para a vida (planos comuns, como estudar ou trabalhar), mesmo que saiba (por razões que só ela pode saber) que não tem condições para ter um filho desejado e bem tratado, esse embrião tem primazia e a sua vida incipiente é mais importante que a da mulher. Apetece perguntar onde é que o senhor Marques Mendes acha que acaba a liberdade do homem que lhe fez o embrião.

Outro argumento que usa é o de que segundo a constituição (artigo 24.º) “A vida humana é inviolável.” Mas a constituição não define o que é uma vida humana, nem estabelece o seu início, podendo mesmo presumir-se que seja o nascimento, já que não prevê o caso de duas vidas existirem no mesmo corpo. É possível a uma lei violar a vida humana de uma mulher para lhe impôr a carga obrigatória de criar uma outra vida? Achará ele que o valor das vidas humanas é absoluto e independente dos seus sentimentos, dos seus sofrimentos, da sua qualidade de vida? Se eu fosse do Não, defenderia então trabalhos forçados para os homens que se descuidaram.

Continua o presidente do PSD: «Coisa diferente é saber se, nestes casos, a pena de prisão é correcta. Não fujo, também, a esta questão e repito o que já antes afirmei: não sou favorável à pena de prisão para a mulher que decide abortar, seja antes ou depois das 10 semanas de gravidez

Ora aí estão as duas causas. Então se é contra a prisão, devia votar Sim à despenalização. Mas vota Não, porque acha mal que se aborte. As duas causas são incompatíveis, mas ele explica que é uma questão de a lei não facilitar:

«Consagrando-a, ela traduzirá um sinal de facilidade, não uma ideia de responsabilidade É como aqueles pais que ameaçam "se te portas mal, castigo-te" e depois não castigam nada, é só para ir avisando, para os miúdos saberem quem manda, percebendo estes perfeitamente que é tudo a fingir. Pelo sim, pelo não, ele diz que Não.

É realmente muito difícil deslindar os paradoxos do Não, mas há mais quem se esforce... E o adeptos das duas causas crescem: agora também o abominável homem das Neves e professor Martelo.

Apesar das contradições, é para eles muito fácil decidir. É uma questão meramente filosófica - o valor da vida em abstracto - que se resolve como uma equação absoluta: 1+1=2. A questão do sofrimento não existe. Não conta o sofrimento da mulher, não conta a sua angústia, nem conta que o tal embrião não sofra nadinha com a IVG nem tenha o sistema nervoso desenvolvido e sinta tanto como uma borbulha (que só dói a quem a possui). Nem conta que ele venha a ser um infeliz, um abandonado, um maltratado ou um mal-amado. É um pedaço de vida. E a vida é para sofrer. Ter filhos não custa nada às mulheres. Será precisamente para isso que elas existem.

Que interessa a Mulher? Se as mulheres teriam alma era uma dúvida medieval. Os teólogos descobriram mais tarde que sim. Depois achava-se que eram os negros que não tinham alma. Outros há que defendem que os cães ou as vacas como sofrem têm alma e não querem matá-los. Agora um embrião, não me venham dizer que tem alma. Nem que sofre. Mais sofre uma mosca.

P.S. Fala-se frequentemente em feto, mas devia falar-se apenas de embriões. Clinicamente o embrião passa a chamar-se feto depois da décima semana. Aliás não tem sido contestada a questão dos embriões excedentários congelados nos processos de fertilização in vitro e reprodução medicamente assistida, aqueles que ficam de reserva para o caso de os outros não pegarem e que, consoante a vontade do casal, hão-de ser desmanchados se não forem usados para experiências científicas. São tão embriões como todos os outros, mas como não estão na barriga das mulheres, como ainda não são parasitas, talvez não pareçam assim ter tanta vida, não é? Nem têm os mesmos "direitos".

Desenho de Alice Geirinhas.

15 janeiro 2007

O slogan dúbio



Um slogan aparentemente tão simples que tem duas (ou mais) respostas possíveis, nenhuma delas óbvia, todas retorcidas: quem responde Sim, apoia o Não; e quem diz Não, vota Sim ou... Não.

Pergunta - Abstenção para manter a prisão?
Resposta A - Sim, não votar para manter a prisão - para ganhar o Não.
Resposta B - Não, votar para não manter a prisão - votar Sim.
Resposta C - Não, votar sim, mas para manter a prisão - votar Não.

Este slogan é o espelho perfeito da indefinição política do partido socialista. Um slogan polissémico que cada um lê como quer, um slogan para espalhar a confusão total. Tal é a indecisão que, ainda por cima, não afirma, pergunta. E passa a mensagem errada (ou certa?): reforça a ideia de abstenção como possibilidade de tomar posição; reforça a ideia conservadora de manter, e ainda reforça a ideia de castigo (que muitos aprovam): a prisão.

A pergunta directa e inequívoca seria:

P - Votar para acabar com a prisão?
R 1 - Não, não votar, para não acabar com a prisão.
R 2 - Sim, votar, para acabar com a prisão.

Mas o slogan teria que ser afirmativo: Votar SIM para acabar com a prisão.


O slogan irmão é igualmente mau e errado, pelas mesmas razões:



Melhor seria: Votar para pôr fim à clandestinidade.

Incompetência ou ubiquidade? É caso para lhe chamar uma anti-campanha.

13 janeiro 2007

Sim, obrigada



Sim, as pessoas que defendem o Não são como carrascos. Estão prontas a condenar sem conhecer as vítimas, nem saber as causas. São pessoínhas intolerantes, moralistas e castigadoras que acham ainda que podem impôr aos outros/e às outras "valores que em princípio são universais" (como diz um anónimo cobarde no post abaixo citado) - mesmo se não o são para os outros. (Vá-se lá explicar-lhes que por isso mesmo não são universais... É que não entendem.)

Apesar de todas as nuances e combinatórias com que se definem os apoiantes do Sim e do Não e da argumentação ambivalente em torno de questões acessórias - liberar, mas não pagar; abortar não, mas só se; penalizar mas não prender; mais um dia menos um dia; clínicas ou hospitais; juramento de Hipócrates ou hipocrisia, etc. - só há duas opções no boletim de voto.

E entre essas duas opções de voto há uma só diferença fundamental: "No referendo sobre a IVG, o campo do Não quer impor os seus valores a todas as pessoas. O campo do Sim acha que são as pessoas que tomam decisões sobre as suas vidas. A importância simbólica do referendo reside aqui: divide as águas quanto à noção de liberdade e fá-lo de maneira radical justamente por remeter para o universo do corpo, da sexualidade, da reprodução, do género - aquele onde é mais viva a batalha entre a prisão (da "natureza" e da tradição) e a liberdade (da cultura e da invenção)" (de Os tempos que correm).

E aqui é que entra a "igualdade de género": é que dificilmente um embrião pode ser feito sem a colaboração, a conivência e a responsabilidade de dois: um homem e uma mulher. A igualdade está na liberdade de escolha. E na possibilidade de uma decisão conjunta. Quando não há acordo, há desigualdade e quem a sofre é a mulher. O corpo é dela. E é sua a última decisão. A desigualdade está na tomada de decisão, que é precisamente individual.

A desigualdade de género passa por aceitarem os homens que nunca hão-de ser mães. E por aceitarem que ser mãe é um acto de liberdade, que inclui o direito a procriar mesmo sem a sua concordância e o direito a abortar mesmo a sua autorização. Eu entendo que custa. Mas é assim mesmo. (Ser pai é uma coisa que se decide na fase anterior.)

Há que aceitar esta igual desigualdade. Ou persistir nos valores machistas que perpetuam a repressão milenar sobre a vida, o corpo e a liberdade das mulheres - exactamente com o único propósito de controlar a sua fecundidade.

07 janeiro 2007

Os moralistas (3)



His master's voice, Alberto Pimenta, 1971.

06 janeiro 2007

Os moralistas (2)



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A Sra. D. Matilde Sousa Franco (do PS) acha que deve combater aquilo que ela chama "bomba-relógio demográfica" com a pena de maternidade para quem engravidar. Assim é contra a despenalização do aborto até às 10 semanas, o que considera uma liberalização, como se cada mulher se apropriasse dos seus meios de produção e os privatizasse. Para ela, a produção de bebés não deve ser deixada à iniciativa individual, pois o estado-nação-sociedade precisa de novos seres e, como os incentivos que há aparentemente não chegam, é preciso evitar desperdícios.
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Mais grave é a demagogia dos seus argumentos: falar em problema demográfico invocando a Comissão Europeia é uma distorção do argumento de autoridade; tanto mais que a recomendação europeia quanto à IVG é contrária às suas convicções; dizer que o aborto aumentou em todos os países onde foi permitido é uma mentira redonda; dizer que "mais de 80% das mulheres que abortaram não o teriam feito se tivessem o apoio familiar e da sociedade" é inventar dados e ignorar o estudo mais recente encomendado pela APF, de que retiro o gráfico abaixo:



Será que a deputada pretende tornar a vida ainda mais difícil às (outras) mulheres e aos embriões que hão-de ser filhos indesejados à força? Pretende ignorar os números do aborto clandestino? Não sabe ela que, mesmo contra a lei, cada uma faz o que entende? Ignora o que é o livre arbítrio?
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Má sorte nascer mulher.

05 janeiro 2007

Os moralistas (1)



Rusga identifica centena e meia de clientes e alternadeiras

"As 32 mulheres foram para a esquadra, «numa carrinha onde tínhamos que ir umas em cima das outras», onde foram revistadas, até à exaustão. «Fomos obrigadas as despir e até as cuecas tivemos que tirar», afirmam. «Somos portuguesas, temos documentos, o que viemos aqui fazer?», questionou Sandra, de 28 anos. «Ainda por cima tivemos que ouvir comentários jocosos e obscenos», afirma. «Isto não tem lógica, é uma humilhação», afirmou ao Diário de Aveiro Patrícia, de 25 anos, que «nunca tinha passado por uma situação destas»." (31-12-2006)

Via A Ilusão da Visão:

"Quer se queira ou não a prostituição não constitui crime em Portugal. As mulheres (excepto uma) eram portuguesas ou estrangeiras em situação legal, tendo esta situação sido logo confirmada no local.Sob a nova lei das armas revistaram-nas despindo-as completamente, incluindo as cuecas! Querem-me dizer que qualquer outro cidadão ao ser revistado sob a lei das armas também é despido na integra!?Dizem que as levaram para a esquadra porque o computador não funcionava ali e foi para ver se tinham algum processo pendente! Mas sob que suspeita o fizeram? Qualquer outro cidadão, sem que lhe recaia alguma suspeita da prática de algum crime, pode ser arbitrariamente levado para a esquadra para averiguar se tem algum processo pendente?Para mais tudo acontece na semana em que o Governo dá instruções para que as alternadeiras/prostitutas brasileiras em situação ilegal não sejam detidas se preencherem um formulário a explicar como chegaram a Portugal, de forma a combater o tráfico humano.Todos os acontecimentos relatados na noticia só ocorreram dada a condição social das alternadeiras. Clara discriminação e violação da dignidade humana."

Má sorte nascer mulher.

04 janeiro 2007

Cenas políticas



O António Maria, nº2, 1879, revista facsimilada online na Hemeroteca Municipal de Lisboa.

HIV e Não



Vírus da SIDA; Vírus do Não.

21 janeiro 2006

P.P.S.

Não era minha intenção citar erradamente PM e parece-me que não o fiz. Quando cito "esse tema..." refiro-o à opção dos media por divulgarem previsões em vez de dados. Creio que não li mal, mas fui mal entendida. (Em resposta ao post no Margens de Erro em resposta ao anterior: «Primeiro, se não for grande incómodo, gostava de ser citado correctamente. O "tema que se encontra resolvido" noutros países é o da adopção de standards sobre como se apresentam resultados de sondagens, e não o da "suspeição sistemática sobre as intenções por detrás da apresentação deste ou daquele resultado".»)

Quando falo da “opção dos media em divulgar resultados que não consideram a fatia de indecisos“, refiro-me à opção editorial de dar na primeira página e em parangonas as estimativas em vez dos dados brutos (que obviamente se encontram no interior do jornal, mas não se encontram sempre online). No caso das televisões, a informação é ainda mais fugaz, e a possibilidade de o eleitor reconsiderar os valores brutos é praticamente nula.

20 janeiro 2006

As melhores sondagens aqui (3)



Gráficos de redistribuição dos dados brutos excluindo os que dizem não ir votar.
Fontes: DN e Público em 20-01-2006

DADOS BRUTOS

Cavaco

Alegre

Soares

Louçã

Jerónimo

Pereira

Branco

NS/NR

NV

DN-TSF 20/01/06

40,7

15,8

9,5

5,4

5,0

0,4

3,8

15,5

2,9

Público-Ant.1-RTP 20/01/06

35

10

9

4

4

0

3

24

11


(Os dados brutos do DN, assim como os do Expresso, não estão disponíveis online.)

É notória a disparidade de resultados entre as duas sondagens, sobretudo nos números de abstencionistas e de indecisos, o que mostra a dimensão do seu desacerto.

Na “estimativa” que os media apresentam como “sondagem”, são excluídos os indecisos, os abstencionistas e até os votos em branco cujo valor também conta no resultado final (como se fosse um candidato fantasma).

A opção dos media em divulgar resultados que não consideram a fatia de indecisos, nem os votos em branco, parecendo ser uma opção técnica, é principalmente uma opção ética – de má ética jornalística. Em vez de facultarem ao eleitor uma informação objectiva, transformam uma campanha eleitoral numa espécie de corrida desportiva em que se dão palpites (em vez de discutir conteúdos). Palpites técnicos que o eleitor comum não decifrará, pois não vai ler as letras miudinhas da sondagem nem fazer as suas contas.

Essa opção é anti-democrática. O quarto poder - cuja deontologia, pelos vistos, não está suficientemente regulada – julga-se acima da política e age - impunemente - vendendo políticos como quem vende sabonetes. Procura persuadir em vez de informar. Sendo essa propaganda por princípio eficaz, começa porém a haver muitos sinais do descrédito que os media hoje têm: ninguém gosta de ser manipulado. Veremos se o conseguem.

P.S. A "suspeição sistemática acerca de supostamente "óbvias" intenções por detrás deste ou daquele resultado", que Pedro Magalhães refere no Público de hoje (edição impressa), não será (senão populistamente em certos casos) dirigida aos autores da sondagem técnica, mas aos critérios jornalísticos dos media ao optarem por divulgar previsões em vez de dados. Diz PM que "esse tema se encontra resolvido, há muito tempo, em países onde a discussão pública e académica sobre as sondagens eleitorais tem tradições mais longas que a nossa". Como, gostaria de saber.

18 janeiro 2006

Fábula da Perca e do Cherne: a grande política


Voltei a ver o Pesadelo de Darwin (em exibição no Nimas). No fundo queria saber duas coisas: se o filme era tão bom como me parecera da primeira vez, ou tão mau como dizem os críticos; segundo, se a informação que transmite não terá sido demasiado manipulada, escorando-se no efeito emocional da visão do horror manso da existência.

Mas confirmei as minhas impressões iniciais. É um filme extraordinário, sensível, subtil, inteligente - e actuante, no espírito dos espectadores. E por isso acho que toda a gente devia vê-lo, e devia ser obrigatório para todos os políticos (os da grande política, os únicos que podem fazer alguma coisa pelo estado geral do mundo). Este filme sobre “a lei da selva” pode ser uma autêntica revolução conceptual.

O filme transporta ainda uma forte visão estética, mas sem cair num esteticismo que seria obsceno. É extraordinário, por exemplo, como um filme passado sob o sol de África pode parecer tão crepuscular, escuro e sujo. Talvez seja o uso do vídeo e das suas potencialidades estéticas que o permita. Por outro lado, o uso de figuras metafóricas substitui muitas vezes a violência omitida: o homem da torre de comando que mata a vespa, o anúncio da coca-cola que diz “life tastes good”, as carcaças de aviões e de peixes, o rapaz que quer ser aviador perante o olhar embevecido do pai, o mesmo que mostra com um sorriso as suas setas envenenadas; a prostituta assassinada que canta “Tanzania” – canção tornada elegia - no ecrã da câmara de vídeo perante as suas colegas emudecidas. No seio daquela existência penosa e tão próxima da morte, Hubert Sauper consegue dar-nos a ver beleza nas personagens sofridas. E no entanto, o crítico despreza: “falta ritmo cinematográfico a este documentário ambicioso, mas esteticamente nulo” (Mário Jorge Torres no Público de 14-01-2006).

Para mim – em documentário - não é aceitável embelezar o horror, a miséria ou a violência, ou seja, transformar o sofrimento alheio em prazer estético, sem cair numa relação abusiva com o real, numa estética do sofrimento. (Na ficção, no teatro, nas artes plásticas, esse é um caminho possível, porque são representações; mas em documentário, há uma relação intrinsecamente ética com o real.) O realizador sabe evitar o comprazimento, assim como sabe evitar o oposto - fazer-nos sofrer pelos outros gratuitamente. Ele dá-nos, com a máxima delicadeza, acesso a um mundo de pessoas, não de imagens construídas. Ele apela à nossa inteligência, não aos instintos.

Quanto à possível manipulação ideológica, pareceu-me limpa. Ou seja: o argumento do realizador é muito claro, o seu olhar justo e humano, a veracidade dos factos fácil de atestar. Não há caminhos enviesados, postulados ideológicos, lógicas bombásticas ou condicionamentos emocionais. O olhar é sereno, equilibrado, não exaltado. Há uma progressão na denúncia de situações escandalosas, com uma exposição ponderada dos dados em jogo, longe de uma posição “anti-globalização primária” como acusa MJT. Pelo contrário, há uma permanente coerência na associação entre assuntos, capaz de elucidar as diversas facetas de uma realidade complexa. É um filme feito à medida da compreensão do espectador.

[Um parêntesis necessário para dizer que não acreditem numa palavra do que diz o crítico: que o filme” não ultrapassa o chavão mais rasteiro” (será que se refere à disputa feroz por um prato de arroz?); que “evita o cerne da questão” (se não é este, qual será?); que tem uma “visão folclórica do ecologismo” (estará a lembrar-se do filme de propaganda com música à hollywood que é projectado na conferência internacional?); que mostra “um certo ‘oportunismo’ de remexer no obviamente condenável” (obviamente condenável seria ficar calado). É lamentável que o crítico, com a sua arrogância, afaste o público de um filme tão importante.]

O debate a que assisti, na sessão de domingo passado, também ajudou a clarificar algumas questões inevitáveis, todas em volta de: o que podemos fazer? Ou como descartar a culpa? Diana Andringa pôs a pergunta claramente: seremos nós, europeus, os predadores de África, a perca do Nilo que come todos os outros peixes pequenos? Sim, somos, e o nosso presidente é o Cherne. (Nas rotas internacional do comércio de peixe, o cherne, peixe caro, é muitas vezes aldrabado e substituído pela perca, mais barata.)

O que fazer? Boicotar a compra de perca não adianta, só penalizaria o pescador paupérrimo. E, como anuncia o dono de fábrica, começa a ser difícil escoar todo o peixe: “a Europa já está cheia”. São 500 toneladas por dia que chegam para alimentar 2 milhões de europeus - o mesmo número de famintos que há na Tanzânia à espera de ajuda humanitária.

Sugeriu um dos presentes no debate - Jorge Palmeirim da Liga para a Protecção da Natureza - que cabe à Europa regulamentar e exigir, pelo menos, que não sejam importados alimentos (ou outros produtos) que não garantam as boas condições de habitação, salubridade, alimentação e educação das populações que as produzem. Caberia ainda às empresas (produtoras e exportadoras) implantadas nessas regiões prover e assegurar essas condições de vida, visto que, nesses países de terceiro mundo, os governos não possuem receitas de impostos (obtidas a partir de mercados oficialmente regulados) capazes de criar essas infra-estruturas. Que diz a Europa e que diz o Cherne?

17 janeiro 2006

As melhores sondagens aqui (2)



Fonte: DN-TSF-Marktest – 17-01-2006
(Os resultados brutos não aparecem na edição online do DN, o que viola a Lei Eleitoral; não creio que esta incida apenas sobre a imprensa em papel.)
Dados brutos: Cavaco: 42,9; Alegre: 14,4; Soares: 10,3; Louçã: 5,2; Jerónimo: 5,0; Branco: 4,1; Pereira: 0,6; Não sabe/não responde: 15,5; Não vota: 2,5.
Excluindo os que não vão votar (2,5%), as percentagens redistribuem-se como mostra o gráfico acima, arredondadas às unidades (automaticamente no Excel).
Os candidatos de esquerda somam 37%, contra Cavaco com 43%.
Ainda há 16% de indecisos (Não sabe/ Não responde).
(Ver discussões abaixo.)

P.S. Segundo o artigo explicativo do DN, 7,4% dos que escolhem Cavaco (= 3% do total) admite vir a mudar (3,7 de "incertos") ou está ainda indeciso (3,7 de "indecisos"). À esquerda, entre os que manifestaram uma intenção de voto, os incertos e indecisos estão em maior número nos que preferem Alegre, Louçã e Jerónimo.