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22 setembro 2007

Alice ou não



Durante esta semana de festival, tem surgido amiúde nas conversas a discussão acerca do filme A Casa de Alice (uma história hetero, digamos) ter sido adequadamente escolhido para a abertura de um festival especialmente intitulado, vocacionado e dirigido a um público gay e lésbico – este ano onomasticamente assumido como queer.

O termo queer, aceite nos estudos académicos, aparentemente não tem tradução portuguesa, ainda. Mas poderia bem chamar-se festival maricas – expressão perfeitamente inocente que nos acompanha desde tenra idade e que tanto se aplica a meninos como as meninas – assinalando um pendor de sensibilidade que exactamente a cultura masculinista rechaça. Mas enfim, o uso das palavras é sempre uma questão delicada e o termo queer torna-se eventualmente mais sério e evita eventualmente a fuga dos espectadores com receio de serem conotados, apontados, confundidos, estigmatizados, gozados e todos esses medos do que os outros vão dizer que contaminam a saloia sociedade lisboeta.

Ora, voltando à casa de Alice, e resumindo o plot: Alice vive com o marido, os 3 filhos matulões e sua mãe. O marido anda com a vizinha do lado, adolescente. Alice é manicura e será seduzida pelo marido da sua melhor cliente. O filho que anda na tropa é prostituto gay. Há uma afectividade vagamente incestuosa entre ele e o irmão mais novo. Quando os rapazes brigam, saltam os insultos. Neste pequeno espaço doméstico, cruzam-se diversas e secretas sexualidades, perante o olhar da avó, atento e silencioso, num papel que se confunde com o nosso olhar de espectadores daquela humanidade em família. Mas, só nós, espectadores, sabemos que ela sabe e nada diz. Nem diz à filha que o marido a engana, nem comenta nem censura nem interfere. Esta avó, com longa experiência de vida, é a figura da tolerância e da aceitação das diferenças dos outros e sobretudo das suas sexualidades, quaisquer que sejam, independentemente das traições, das ambiguidades morais e das mentiras que elas representam.

Perguntava-me alguém (que não viu o filme): então é um filme contra o casamento machista? Não, não é contra nada. (Não é um filme heterofóbico.) É um filme onde se pratica a aceitação plena do humano naquilo que sempre o define tão bem, ao contrário do conhecido preceito que diz “não faças aos outros o que não queres que te façam a ti”. Pois é o que toda a gente faz, encaremos a realidade. Aceitemos a contradição dos actos.

Haverá melhor filme para abrir um festival destes e demonstrar, sem moralismos quaisquer, que toda a sexualidade tem a mesma origem, apenas variam as suas vivências, preferências e concepções?

Leituras recomendadas:
http://danieljskramesto.blogspot.com/2007/09/subtilmente.html
http://damnqueer.blogspot.com/2007/09/s-voltas-com-o-queer.html

21 junho 2007

As 7 letras do arco-íris



Já repararam que, desde o ano passado, o Arraial Pride assumiu mais uma letra? LGBT e H de hetero. Isso quer dizer que todos os heterossexuais que apoiam e defendem direitos iguais para todas as categorias de género e orientação sexual, podem comparecer a manifestar-se e a festejar o S. João.
Mas estas letras ainda não abrangem tod@s. É que nem toda gente encaixa no modelo de parelha que aquelas letras descrevem. Assim como há famílias unipessoais, também haverá os que se contentam na sua unicidade e ainda os que dispensam orientações sexuais. Por isso, eu acrescentava ainda mais duas letras - O de onanista - e A de assexuado: LGBTHOA (que rima com Lisboa).

06 abril 2006

Genealogia (2)



Comizi d’Amore (Comícios de Amor), documentário-inquérito de Pasolini (1964), sobre a sexualidade dos italianos, serviu de matriz para este outro Comizi d’Amore 2000, de Bruno Bigoni, remake assumido que utiliza as próprias perguntas de Pasolini, e a sua voz no filme original, para voltar aos mesmos lugares e entrevistar as mesmas personagens-tipo. Do diferencial entre umas e outras respostas, teremos uma medida da evolução dos costumes no tempo de uma geração.

As crianças já não contam a história da cegonha e sabem que foram geradas na barriga da mãe. Só não sabem é como foram lá parar. As mulheres manifestam-se muito mais numerosa e abertamente que nos anos 60, assumem a igualdade, embora acusem ainda a existência de preconceitos sociais em relação à sexualidade, havendo ainda muitas (as mais velhas, sobretudo) que defendem a virgindade como um valor. Os pais rurais continuam a limitar às raparigas os encontros com o namorado.

Em relação à prostituição, as opinião são quase as mesmas de há 40 anos – a preferências pelos bordéis (que tinham sido fechados por altura do documentário de Pasolini e assim continuam), pois permitiriam controlar e cuidar das mulheres e da sua saúde, ao contrário da prostituição de estrada – mas Bigoni foge ao guião original, não conseguindo entrevistar algumas dessas trabalhadoras da rua.

Onde se nota maior evolução das mentalidade é na aceitação e na compreensão da homossexualidade. Não havendo qualquer unanimidade, a diversidade de opiniões, leituras e fantasias é tal que percebemos ser esta uma área de representações sociais em plena mutação, tal como o era a libertação da mulher nos anos 60.

Que hoje há menos tabus em relação à sexualidade é uma evidência para todos, mesmo sem vermos este filme. Estranho é que, em 70 minutos, haja uma só referência à SIDA. A omissão deste problema não se compreende, senão como atavismo do realizador que, colado ao guião original passo a passo, deixou cair o juízo crítico e a capacidade para actualizar questões e diagnosticar novos problemas. Ou não ousa ainda falar desse novo tabu?

Que sentido poderá fazer este documentário daqui a 40 anos (quando já houver vacina contra a SIDA...)? Terá o valor histórico que hoje tem o primeiro? Na verdade, entre um e outro documento-histórico as diferenças são meramente evolutivas, percentuais talvez, pois os paradigmas ideológicos representados são os mesmos. Juntos comprovam como a evolução dos costumes e das mentalidades é um processo lento, multiforme, disperso e incoerente.

Embora preso ao guião original, Bigoni moderniza o seu filme pela inserção, em vez dos comentários e frases de Pasolini, de intermezzos tipo teledisco, imagens saltitantes filmadas em Super8, estilística na moda mas despida de motivação. Onde Pasolini reflectia sobre o seu método e convocava Moravia e outros para discutir os resultados da sua pesquisa através de Itália, Bigoni limita-se a fazer um produto televisivo, picante mas sem problemática, com muita música, muitas imagens ópticas, a caução do plágio assumido como homenagem, e a pretensão de um estudo sem reflexão.

(Visto na Cinemateca em 5 de Abril.)

10 dezembro 2005

Genealogia da repressão


Na tradução francesa chama-se “Inquérito sobre a sexualidade”, o documentário Comizi d’Amore de Pier Paolo Pasolini feito em 1964, que em jeito de cinema-verité, como assinala Alberto Moravia, procura fazer um diagnóstico da sexualidade em Itália.

Pasolini, de microfone em punho, começa pelas crianças: como nascem os bebés e (saltando de pergunta em pergunta) como é que a cegonha os traz ou se é ela ou deus que pega no bebé, etc. Aos jovens e adultos pergunta, por exemplo, se o sexo é importante nas suas vidas, se o casamento resolve todos os problemas sexuais, se o divórcio deveria ser permitido, se as mulheres têm mais ou menos liberdade, sobre o que é a honra sexual e o ciúme, sobre os “invertidos”, sobre a família, os namoros, a prostituição, etc. etc. As perguntas iniciais são abertas, mas perante a hesitação dos entrevistados, PPP - perguntador ágil - rapidamente pede uma confirmação, ou logo inverte os termos da equação e coloca o outro em necessidade de se explicar.

O método adoptado é aquele que hoje reconhecemos como típico das entrevistas televisivas de rua, mas com uma importante diferença: aqui as perguntas sucedem-se continuamente às respostas, até obterem satisfação ou se esgotarem. Apesar de fora do ecrã, a presença do realizador – adaptável, aceitando todas as respostas, mas levantando os porquês – é a voz condutora desse inquérito e assume o seu ponto de vista por várias vezes, expondo dúvidas e afixando textos com alguma ironia. Quando as palavras ditas excedem o nível de tolerância socialmente aceite, Pasolini, evitando a censura (presume-se), não retira as imagens do filme, apenas lhes suprime o som e escreve em grandes letras: AUTOCENSURA (a dele, claro).

As entrevistas são feitas na rua no meio de ajuntamentos populares e grande atenção. As opiniões reforçam-se ou divergem, mas manifestam-se com vigor e convicção, apesar daqueles que, reconhecendo o tabu do assunto, se escudam de responder. Essa consciência é mais clara nas entrevistas aos burgueses (principalmente mulheres jovens, entre as quais Oriana Fallaci), que também tendem a considerações abstractizantes: falam em geral, mas pouco de si mesmos. Essa falta de receptividade da burguesia, por oposição aos populares pululantes, é alvo de uma tentativa de explicação final, por Moravia, algo a ver com uma hipocrisia jocosa. E conclui: é preciso sempre tentar compreender; a indignação é uma expressão da insegurança.

PPP admite não ter aprendido muito com o inquérito. Talvez não fosse fácil, nos anos 60, num país católico, pôr as pessoas a falar em público de um assunto privado e tabu. Hoje, apesar de quebrados praticamente todos os tabus, talvez ainda não seja fácil. A sexualidade, apesar de omnipresente nas mensagens da publicidade e da tv, continua a pertencer à esfera da intimidade. E alguns dogmas daquela época continuam subjacentes. Mesmo nas aulas de educação sexual ainda é difícil falar francamente.

Como as entrevistas são sempre em espaço público, com uma chusma de assistentes em roda, é de presumir que as pessoas não expressem exactamente o que sentem ou pensam, mas o que acham que é aceitável pensar ou sentir. Assim, torna-se, não tanto um inquérito à sexualidade, mas às regras da sexualidade. A diferença entre o Norte e o Sul de Itália resulta evidente, com um operário chegando à conclusão de que “a liberdade vem do trabalho” e que se as mulheres italianas (do sul) pudessem, como as alemãs, trabalhar (se os patriarcas as deixassem), haveria menos pobreza.

Visto 40 anos depois, este filme, reproduzindo uma mentalidade conhecida, persistente, mas já desactualizada, pode até parecer não ir muito longe no diagnóstico da sexualidade (se o compararmos, por exemplo, aos estudos americanos tipo Kinsey ou Hite), mas tem uma qualidade extraordinária: diz tudo sobre as crenças e representações socialmente partilhadas acerca da vida sexual, naquele tempo e naquele espaço, de forma mais rica que um estudo sociológico. Define por completo uma ideologia, nomeada “tradicional” ou “conformista”, parte importante da nossa genealogia cultural. Mas, porque também há muitas respostas divergentes, põe em evidência as questões fracturantes à época, que eram sobretudo o divórcio e a liberdade das mulheres. (As divergências sobre a virgindade ou a homossexualidade, por exemplo, ainda não se acusam.)

(Visto no IFP, dia 05/12/2005, no ciclo “O mundo é um grande asilo”)

02 dezembro 2005

A crítica do olhar



Todos os filmes, e particularmente os documentários, ganham em ser discutidos, como aliás é prática corrente nos festivais. Esse debate de ideias que se sucede ao primeiro olhar, permite reflectir melhor sobre o filme, em vez de o arquivar imediatamente numa gaveta obscura da memória.

No debate que se seguiu à projecção do meu documentário Doutor Estranho Amor, levantaram-se várias divergências. Onde uns vêem desigualdade social, outros vêem integração escolar. Onde uns vêem um percurso de aproximação entre formadores e formandos, outros vêem uma fragilidade na explicitação de objectivos. Onde uns vêem uma atitude ríspida do professor, outros vêem a indisciplina dos alunos. Onde uns vêem uma turma de rapazes apaixonados por uma rapariga, outros vêem uma rapariga demasiado sedutora. Onde uns vêem o esforço e a paciência dos professores, outros acham-nos culpados pelo analfabetismo dos alunos. Outros, extrapolando, vêem um sistema de ensino em causa, um país em ruptura, uma democracia em risco. Inventar é livre.

O mais interessante é que todos têm razão. E as coisas são muito menos claras do que parecem. Num gesto de cabeça sobre um ombro de rapariga, uns vêem a ternura do rapaz, outros reparam no constrangimento dela, outros ainda encontram a representação da distância que vai entre o que diz e o que se mostra. O que só demonstra que a situação é complexa e ambígua. Não resulta daqui uma posição crítica ou ideológica evidente. Pelo contrário, a coexistência de pontos de vista diferentes é que vem propiciar a discussão colectiva. O filme, assim, é também uma forma de intervenção nesse social.

Se fosse um documentário que tivesse como intenção promover um certo projecto educativo, seria um chamado filme institucional. Se fosse dirigido por uma voz off, seria possivelmente um documentário de estilo televisivo, com uma mensagem explícita de reforma social. Em qualquer dos casos, o espectador era suposto aderir e anuir. Sendo um documentário livre desses constrangimentos exteriores ou incorporados, aceita todas as interpretações e pede ao espectador uma reflexão própria.

De todas estas opiniões divergentes, o que é que sobra do “olhar pessoal” do realizador? A possibilidade de revelar as contradições inerentes ao real - em vez de revelar convicções pessoais. Este não é um filme de opinião, portanto. É um documentário de observação. Tenho a minha opinião, claro, mas vale tanto como a de qualquer outro espectador do filme. Prefiro até não a manifestar antecipadamente para não condicionar a leitura individual do filme, que, sendo um documentário, facilmente resvala para uma leitura do real preexistente.

(Porque em documentário há sempre uma realidade que suscita esse olhar. Ao contrário da ficção, onde o olhar é que suscita a criação de um real.)

04 novembro 2005

O medo de existir


Sempre houve educação sexual mas continuará a não haver.

É o próprio parecer do Conselho Nacional de Educação sobre Educação Sexual que claramente distingue duas formas de educação da sexualidade: a informal e a formal. A primeira é aquela que sempre tivemos e que, acompanhando as mudanças sociais e culturais, vem evoluindo em termos de modelos, valores e práticas. A formal é aquela que é ensinada numa instituição, ou seja, na Igreja ou na Escola.

A Igreja tem a sua catequese e seu papa e age livremente em terreno próprio, no seu combate contra as realidades (o preservativo, o aborto, a homossexualidade). A Escola ainda não assumiu completamente o seu papel educativo neste campo, a não ser muito recentemente, precisamente com este relatório.

Na minha opinião, no campo da educação sexual, cabe à escola transmitir conhecimentos que não sejam passíveis de discussão. Ou seja, que não colidam com os valores de cada um, mas que transmitam valores universais e consensuais, como o respeito pela opinião alheia e a liberdade individual. O que significa que a escola, ao contrário da igreja, não deve impor modelos de comportamentos, nem julgar crenças, nem discriminar pessoas ou modos de vida.

Isto, aliás, o próprio relatório o diz: “A Educação Sexual em meio escolar não pode posicionar-se em relação a qualquer atitude e quadro de valores que não sejam consensuais (...)”.

Propondo que a educação sexual seja uma área curricular transversal integrada na educação para a saúde, a Comissão não recomenda que seja criado um programa nacional, mas apenas que cada escola defina o seu programa e o apresente ao Ministério para aprovação. Nem sequer avança com um esboço de intenções ou sequer objectivos gerais, como é prática corrente nos curricula escolares.

De um modo geral, de acordo com as práticas correntes e que o relatório colige, os objectivos gerais da Educação para a Saúde serão fornecer informação adequada e correcta e prevenir comportamentos de risco, como a obesidade, o alcoolismo, as drogas, a transmissão de doenças, nomeadamente a sida, ou a prevenção da gravidez não desejada, fruto em parte da desinformação. No fundo, um prolongamento das recomendações que um médico ou um centro de saúde dá, mas preventivamente.

Qual será então o objectivo geral da Educação Sexual, qual a estratégia a seguir? A única resposta que lá encontro é esta: “O CNE reitera que a Educação Sexual em meio escolar é uma componente da área de Formação Pessoal e Social, que se enquadra na educação em valores e para os valores.”

Insiste-se na educação dos valores. Mas que valores? É que valores são como os gostos, dificilmente se conseguem discutir, porque estão ancorados em convicções profundas, estruturais, emotivas, quase irracionais. O caso do aborto é o melhor exemplo: é impossível converter os oponentes do sim e do não. Ambos têm posições irredutíveis e não estão dispostos a abdicar delas. Num diálogo de surdos, o mais que uma discussão de valores pode fazer é ensinar a uns que respeitem as opções dos outros. E como é que se discute este assunto numa aula de educação sexual? Como é que evita que as convicções do professor ofendam as dos diferentes alunos?

Nem neste nem noutros valores, podem os cidadãos ser polícias das consciências alheias. O mérito que pode ter uma discussão de valores é levar uns a compreender ou a aceitar os valores dos outros. Mas mesmo isso é difícil. É uma luta sem tréguas. Veja-se o caso do direito ao casamento e à adopção por parte de pessoas do mesmo sexo.

Mas afinal, o próprio parecer reconhece até onde vai e onde acaba o consenso: “É consensual falar de Educação Sexual nas escolas numa vertente de natureza informativa, na medida em que se reconhece à escola a função de organizar em códigos de conhecimento o que o aluno precisa de saber sobre reprodução, fecundação, corpo, identidade, diferença, género, entre outros conteúdos curriculares. Falar de uma Educação Sexual na dimensão da Educação para a Sexualidade, ou Educação da Sexualidade, que se prende a afectos, emoções, amor, estádios maturativos, desenvolvimento da personalidade, para além de outras questões, significa reconhecer o dissenso.”

O modelo que agora se propõe correrá o risco de se diluir - e desresponsabilizar (como acautela o documento) todos os intervenientes transversalmente - como aconteceu com a disciplina de DPS – Desenvolvimento Pessoal e Social – criada há 16 anos e nunca implementada nas escolas (o que os pais comprovam todos os anos, quando inscrevem os filhos opcionalmente em Religião e Moral ou DPS).

O que eu encontro neste relatório, muito equilibrado mas totalmente ambíguo, é que procura agradar a todos, sem definir nada. Quem fala aqui é o medo, o desenrasquem-se como quiserem, que aliás é como sempre foi. Ou o “medo de existir” (de José Gil, como assinala Miguel Vale de Almeida).

A real educação sexual é informal, como sempre foi. Faz-se com os amigos, com os exemplos alheios, com as revistas cor-de-rosa, com a telenovelas, com os bigbrothers, com a internet, com a família (last and least). Todos estes meios são muito mais poderosos que a escola, para veicular modelos e valores. A escola, aliás, tem por incumbência transmitir conhecimentos e dar instrumentos de raciocínio necessários ao desenvolvimento da pessoa (o que não é missão de nenhum dos outros meios).

E no entanto, o meio de educação mais eficaz que existe é a televisão. Tanto pode educar como deseducar. É por isso que acho que, das obrigações da televisão pública, deveria constar uma componente pedagógica (não apenas cultural) - um programa de educação cívica com objectivos definidos (como nas escolas), que divulgasse informação indispensável ao cidadão comum: por exemplo, nesta área, a prevenção da sida, a informação sobre contracepção. Nada é pior que a ignorância.

Mas a educação cívica passa também pela educação para os media, ou como aprender a ler e descodificar as mensagens dos media. Perceber, or exemplo, que, quando se fala em aborto e em vez de mostrar um embrião se publica uma fotografia de um feto (após as 10 semanas), se está a mentir, a manipular sentimentos e a condicionar involuntariamente o leitor.

As recomendações desta Comissão, na minha opinião, escondem o medo de agir e orientar, o medo de ofender, não tanto as famílias em geral, mas as organizações fanáticas que falam em nome delas e da igreja. Tal é o peso do catolicismo nesta política de cobardes e inoperantes. E as coisas mais importantes, pessoal e socialmente, afinal são: evitar doenças fatais, gravidezes indesejadas, crianças abandonadas, pessoas discriminadas. Não é tão simples explicar isto a qualquer pessoa? Ou têm os meninos que ver o programa de sexo da TVI às escondidas?

13 outubro 2005

Como é diferente o amor em Portugal*


Todos os filmes têm algo de universal: aquilo que é humano, aquilo que vem pela linguagem das imagens, e aquilo que é a força do seu referente real. Mas há aspectos do real dos filmes que vistos a distância são pouco mais que exóticos, e outros que fazem sentido apenas para quem conhece bem o contexto.

O meu documentário Doutor Estranho Amor faz sentido aqui e agora como um filme sobre educação sexual – mas duvido que seja significativo noutras partes da Europa, a não ser como um sinal do nosso subdesenvolvimento cultural.

Não sei se noutros países europeus lhes interessa discutir estratégias de prevenção da SIDA, visto que desde há 15 anos têm tido bons resultados na diminuição da taxa de infecção, ao contrário de Portugal onde esta tem subido alarmantemente (ver abaixo), presumo que por falta de informação, medidas de prevenção desadequadas, iliteracia, etc.

A Irlanda, onde o aborto é também proibido, ou outros países mais a sul ou mais a leste, teriam algum benefício a tirar deste filme? Não sei se aí as pessoas falam de sexo com os mesmos eufemismos que cá se usam. Nem sei se nesses sítios haverá meios para exibição de documentários feitos em países ricos onde há escolas modernas bem equipadas e políticas adaptadas a realidades bem diferentes.

Há filmes que são feitos para interpelar a realidade onde nascem. Tão só. Essa realidade é aquela em que um primeiro-ministro socialista extinguiu, em Junho passado, a Comissão Nacional de Luta Contra a SIDA.

Se não acreditam, vão ver:
http://jn.sapo.pt/2005/06/24/sociedade/extinta_comissao_luta_contra_a_sida.html http://bichos-carpinteiros.blogspot.com/2005/06/extinguir-coisas-fundamentais.html
http://gatportugal.blogspot.com/2005/06/extinta-comisso-de-luta-contra-sida.html

* Júlio Dantas dixit


29 setembro 2005

Sexualidade e cinema


Por falar em tabus, chegou-me por email a informação sobre este ciclo de cinema na Universidade Lusófona, ao Campo Grande, a partir de 12 de Outubro.
Organização da Videoteca de Lisboa.

A realidade inverosímil


O meu interesse maior pelo documentário vem da noção de que muitas vezes a realidade ultrapassa a ficção. A realidade é múltipla, polimórfica, a várias vozes. A ficção é pessoal e unívoca. A realidade é muito mais equívoca. Mas, tal como o feitiço e o feiticeiro, às vezes a verdade vira-se contra o verdadeiro e o real contra o realizador.

O meu último filme, que só alguns ainda viram, tem provocado nos seus poucos espectadores uma dúvida incontornável. É que há cenas que, por parecerem inverosímeis, custa às pessoas aceitar que são reais. Custa-lhes pelo menos não ficar na dúvida, quando vêem aparecer um coquetel completamente banhado em luz vermelha e a música captada directamente a parecer posta de propósito para genérico do filme. Também noutras cenas de escola, a música parece escolhida para comentar as situações, mas ela foi simplesmente a selecção musical que os alunos fizeram naquele momento.

Creio mesmo que foi esse equívoco estilístico que motivou a recusa do meu documentário Doutor Estranho Amor no DocLisboa 2005. Também esta notícia foi para mim inverosímil e não consigo ainda compreender por que o excluíram, pois, embora saiba que a selecção está condicionada a um calendário limitado, o meu filme tem tudo para ser oportuno e bem aceite.

É o primeiro documentário feito em Portugal sobre o tema da educação sexual, que muita polémica tem alimentado nos últimos meses na opinião pública. É um filme político porque se aproxima um referendo sobre o aborto, situação real mas inverosímil segundo os padrões de toda Europa. (O DocLisboa assumiu no ano anterior essencialmente como um festival político. Ou deixou de o ser?) É um filme coeso, com situações muito interessantes, momentos fortes, personagens afirmativas.

Por último, este filme é urgente, porque há um tabu na nossa sociedade, não apenas em relação à sexualidade, mas sobretudo quanto a falar-se de SIDA, objectivo último da experiência de voluntariado que o documentário acompanha. A taxa de SIDA (número de novos casos por ano) em Portugal é a maior da Europa. Talvez isso não impressione ninguém, habituados que estamos a ocupar as margens estatísticas. Mas se olharmos o gráfico abaixo, podemos perceber como este problema é grave e tem sido escamoteado e ignorado – o que também é inacreditável.

Por último, este filme é urgente, porque há um tabu na nossa sociedade, não apenas em relação à sexualidade, mas sobretudo quanto a falar-se de SIDA, objectivo último da experiência de voluntariado que o documentário acompanha. A taxa de SIDA (número de novos casos por ano) em Portugal é a maior da Europa. Talvez isso não impressione ninguém, habituados que estamos a ocupar as margens estatísticas. Mas se olharmos o gráfico abaixo, podemos perceber como este problema é grave e tem sido escamoteado e ignorado – o que também é inacreditável.


Taxa de incidência anual por milhão de habitantes. Fonte: Abraço

Portugal apresenta a mais alta taxa de incidência (número de novos casos) da Europa de infecção pelo VIH - principalmente na faixa etária dos jovens – taxa que tem vindo a aumentar nos últimos anos, ao contrário da tendência europeia e contrastando especialmente com evolução de Espanha, França e Itália, países que haviam iniciado a década de 90 com valores mais desfavoráveis do que Portugal e que conseguem uma considerável melhoria no final da década.

“Segundo um estudo do Eurostat, divulgado a 10 de Setembro de 2002, Portugal é o único país da União Europeia onde se tem registado um aumento do número de infectados com o VIH e apresenta uma taxa de incidência (número de casos por milhão de habitantes) cinco vezes superior à média da comunidade. No 1º semestre de 2004 foram notificados 1515 novos casos de infecção pelo HIV.” (http://www.roche.pt/sida/estatisticas/portugal.cfm

Outros dados em: http://www.aidscongress.net/article.php?id_comunicacao=248

17 setembro 2005

Say Amen


Say Amen é um documentário autobiográfico sobre a saída do armário do seu realizador gay por meio de uma indagação familiar. David Deri, filho de uma família tradicional israelita, interroga os numerosos irmãos acerca de como eles encaram a sua homossexualidade, e é avisado que, se o contar ao pai, poderá matá-lo de desgosto.

Muitas vezes filma à revelia, contra a vontade das pessoas que lhe estão próximas e que afastam a câmara intrusiva. Apesar de usar bons meios técnicos, filma como homevideo propositado (herdeiro do cinema-verdade e dos dogmas 95), num estilo caótico frequente neste género de documentários autobiográficos, ou familiares, muito desenvolvido nos anos recentes. O uso de música em algumas cenas, num tom de videoclip, tem uma função subjectivante semelhante àquela que cada um cria quando enfia o walkman nas orelhas e olha o mundo tingido por uma (assim chamada) imagem sonora.

Em resposta a esta interpelação forçada e sucessiva, todos insistem em que arranje uma namorada, excepto uma cunhada que tenta defendê-lo, mas o marido não a deixa falar. Até que chega o momento da revelação à mãe, que logo teme pela vida do pai. Finalmente, quando aborda o pai, este já sabe tudo e pergunta-lhe apenas: por que andas com homens? Não chega a haver aceitação mútua, mas há conciliação, com os pais a abençoarem o filho e a desejarem-lhe uma noiva. Uma irmã alegra-se porque consultou uma vidente que, ao deitar as cartas, lhe disse logo: ele é bissexual. E incita-o a casar, ainda que depois se divorcie e faça o quiser...

Neste processo de confronto múltiplo, conseguimos apreender muitos aspectos da cultura local – com a grande importância dada à unidade familiar - e compreender os valores de uns tanto como de outros. Percebemos como todas as convicções são tão relativas e instáveis.

(visto na ZDB/VideoLisboa)