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13 junho 2007

Regresso à pré-história



Será lançado - na próxima sexta-feira, 15 de Junho - o número 5 da revista Docs.pt, com dossier dedicado às relações entre televisão e documentário. Que o interesse das televisões pelo chamado documentário de criação, ou documentário social, ou documentário cinematográfico, é ténue, já se adivinhava. Mas, ao confrontar os agentes televisivos com as suas opções, percebemos então que voltámos à pré-história do documentário - em Portugal.

De que serviram 10 anos de actividade da associação Apordoc e de promoção, debate e divulgação de cinema documental? De que serviram 12 anos de festival da Malaposta, ao longo dos quais Manuel Costa e Silva foi educando um público que não existia e apoiando os criadores nacionais? De que serviram 4 edições cheias de público do festival Doclisboa, mais os pitchings do LisbonDocs, ou a programação de documentários exibidos em espaço próprio na RTP2 por Diana Andringa e Jorge Campos?

A RTP - serviço público - continua alheia à existência de documentários. A RTP2 continua a gabar-se de passar muitos documentários de animais e de "cultura portuguesa", tipo A Alma e a Gente - que são outro tipo de documentário, o chamado "documentário televisivo", com as suas regras próprias, a sua formatação, os seus limites. Mas por que ignora o potencial, o interesse e a existência de outro tipo de filmes? Os documentários - tanto, aliás, como as ficções de longa-metragem que durante anos tiveram espaço privilegiado na RTP2 (lembram-se das "5 noites 5 filmes"?) - desapareceram subitamente com a anterior direcção de Manuel Falcão.

A RTP2 de hoje, com a sobranceria que o seu director de programas Jorge Wemans demonstra na entrevista dada à Docs.pt, nega até a existência documentários portugueses. A pergunta feita pela Docs.pt é claríssima: “Então a RTP não exibe documentários portugueses porque não há?» E a resposta lapidar: «Claro! Pensa-se que há uma produção imensa e que a RTP2 não quer exibir.» Ora é isso mesmo que se pensa o que acontece.

Há muitos documentários em Portugal que a RTP não quer exibir: a maior parte dos documentários de que é co-produtora por via do protocolo de apoio ao cinema português que tem com o ICA. Têm-nos lá, são filmes financiados oficialmente, mas a RTP recusa-se a emiti-los e a devolvê-los à sociedade de onde provêm, que reflectem e a quem se dirigem, impossibilitando o seu escrutínio público, a existências de crítica, de discussão e de vozes diversas no espaço público de televisão (nem que fosse tarde e a más horas!).

Diz Wemans: «Sendo mais claro, eu acho que há documentários de autor que não foram feitos a pensar em televisão e que portanto eu, como programador, acho que não têm lugar na grelha.» E ainda diz: «Eu não tenho nenhum espaço televisivo permanente que corresponda à ideia mais estreita de documentário de autor e nem estou interessado em criá-lo porque acho que ele deve dialogar com outros documentários.» Ora, exactamente, parece-me que a ideia de documentário de Wemans é que é muito estreita e demonstra falta de visão e de conhecimento.

«É verdade que se o documentário de autor me surge como uma proposta em que eu não decidi nada, (...) que foi realizado por quem quis, com o olhar que quis, recorrendo aos financiamentos que pôde, esse documentário tem um espaço mais limitado na RTP2.» Ou seja, Jorge Wemans arroga-se, enquanto director de programas, o papel a ter uma palavra sobre o olhar e a realização de cada filme, recusando-se a entender que documentário-de-autor é realmente de autor, e não de programador. Parece não saber que fazer um documentário é uma actividade que se exerce no campo da liberdade de expressão, tal como um livro, uma crónica ou um debate televisivo. Só a diversidade pode garantir a liberdade de expressão.

Não cabe a um programador impor o seu programa estético e ideológico centralizado, mas dar abertura e espaço a que a diversidade de perspectivas se manifeste e chegue aos seus interlocutores: a sociedade, o público. O programador deve servir o espectador, não enquanto público-alvo, como em publicidade e televisão comercial, mas enquanto sociedade – isso é que é serviço público.

Houve já muitos exemplos de como este tipo de documentário – até pelo seu conteúdo social e humano – encontra boa recepção junto do público e consegue afirmar a sua identidade na criação de novos públicos. Mas a RTP parece não se interessar por essa coisa – que é serviço público – que é criar novos públicos e promover a cultura. Para Wemans, serviço público é “a nossa iniciativa fundamentalmente centrada nos documentários sobre a cultura e património português”, visão tradicional e estreitíssima do conceito de documentário. A televisão portuguesa ainda não passou o cabo Bojador, como diz José Manuel Costa noutro artigo da Docs.pt.

Não te parece, leitor, que a obrigação moral da RTP seria exibir os documentários portugueses e cumprir um serviço público que “se a RTP não fizer, ninguém mais fará” (como diz Leena Pasanen acerca da televisão finlandesa)?

22 abril 2007

Quem sabe sabe




"Melhor negócio que o da saúde... só mesmo a indústria do armamento."

(Acerca do novo Hospital da Luz, Isabel Vaz, RTP1, 18-04-2007)

06 junho 2006

Disciplina



Não vi a famigerada reportagem da RTP1 sobre indisciplina escolar, filmada com câmaras ocultas, identidades ocultas e propósitos ocultos. Li muita da discussão que se gerou e que apresenta duas tendências importantes: uma que considera (mais ou menos) ilegítimos os meios de gravação de imagens, assunto que não deixa ninguém indiferente pelo que traz de prenúncios de uma sociedade controlada; outra que considera insustentável a situação de indisciplina escolar e meritório o debate promovido pelo dito filme.

O que me preocupa não é nem uma nem outra dimensão do problema levantado por este (bizarro) método. O que me assusta são os ecos dessa discussão e os efeitos. O primeiro efeito é ouvir-se extrapolar de 1 caso mostrado para uma situação generalizada de indisciplina escolar; o segundo efeito é transmitir-se a sensação de que este problema “geral” é insolúvel; o terceiro efeito é fazer crer ao senso comum que a escola em geral precisa de mais disciplina e autoridade. A partir daqui tudo pode ser justificável: tudo.

O problema insanável, para mim, é a irresistível tentação humana para generalizar sinais e criar categorias – o mesmo processo básico de qualquer racismo ou discriminação. Neste caso da educação, não há, como alguns já clamam, uma solução definitiva para o “problema” da escola. O problema da escola é um problema que a ultrapassa e tem origem noutros problemas sociais, um dos quais será os 2 milhões de pobres actuais. Como é que a escola sozinha poderia resolver satisfatoriamente um problema que vem de fora?

Mas a escola tem feito milagres, exemplos de tenacidade dos professores são inúmeros, resultados obtidos também. É pena a televisão não saber extrapolar estes casos – mostrar que também há soluções, que cada solução é diferente, que cada caso é um caso, que cada criança é única, que cada família... É pena não mostrar que para haver disciplina não há soluções únicas; que não precisamos de um novo salazar. Mas a voz do dono diz o contrário e as pessoas acabarão por acreditar.

Para mim, isto é um pré-aviso muito claro de um neo-fascismo a espalhar tentáculos na nossa existência quotidiana. É tanto mais evidente quanto surge por meio da instituição omnipotente chamada televisão, dispositivo de controlo remoto dos ânimos sociais. Não tardará muito que as escolas tenham em cada sala uma câmara e polícias "escola segura" a vigiar ecrãs.

Outras opiniões:
http://inquietacaopedagogica.blogspot.com/2006/06/sonhar-com-autoridade-perdida-e.html
http://ocanhoto.blogspot.com/2006/05/arrasto-parte-ii.html

P.S. A reportagem está acessível online em mms://195.245.176.20/rtpfiles/videos/ocas/violencianasescolas20060530.wmv a partir de http://multimedia.rtp.pt/area_home_video.php . Agora que a vi, posso dizer que me parece que a excepcionalidade das situações está suficientemente acautelada na reportagem e no debate que se segue. Mas também não me chocou demasiado aquilo que vi passar-se nas aulas: a indisciplina de andar à luta, de subir acima das mesas, etc. não é nova, lembro-me de coisas piores no pós-25 de Abril, percebo a energia incontrolável daqueles miúdos à toa e desejosos de captar atenções, a fraqueza de alguns professores. Eu própria como professora já lidei com situações semelhantes e sei que cada caso merece uma resposta específica e adequada. Também já filmei em muitas salas de aula, inclusive situações de indisciplina. O erro deste programa está em procurar fazer um diagnóstico global e discutir soluções gerais, a partir de depoimentos individuais. Mas não achei malévolo nem maléfico: pode ser interessante que os espectadores se revejam naqueles casos. O problema é que as pessoas generalizam muito facilmente e logo concluem que o “sistema” está “degradado”, que “isto vai de mal a pior”, que antigamente não era assim, que a escola já não é escola... Tomam a árvore pela floresta, confundem o cu com as calças (tomam a parte pelo todo, ou seja, pensam por menonímia). Mobilizam emoções fortes, mas julgam que detêm a razão. Alimentam o pessimismo e maledicência, duas artes incapazes de contribuir para a solução dos problemas.

P.P.S. Não vejo este “neo-fascismo” como uma ameaça que vem do “sistema”, vejo-o como um estado de espírito perigoso porque alastra do indivíduo ao grupo, porque se aloja no íntimo de cada um como um sentimento de medo. O medo colectivo é o cerne da definição de fascismo.

17 maio 2006

Questões de género (2)

Voltando aos campos cinematográficos e aos géneros documentais: posso considerar o documentário como um género, mas apenas dentro da território da televisão, onde se equipara aos noticiários, aos talkshows, aos concursos, etc. Na verdade, em televisão os géneros são chamados de “formatos”, de tal modo as suas características comuns são definidas a priori e não a posteriori.

Nesse sentido, o documentário televisivo poderá considerar-se um género dentro do campo do documentário. Embora mantendo afinidades com o documentário chamado cinematográfico, é tendencialmente diferente, pois vive noutro meio e fala outra língua. Documentário cinematográfico e documentário televisivo são como dois irmãos, um vive no Campo do Cinema, outro vive na Cidade da Televisão, têm muitas parecenças mas nem sempre se entendem bem, talvez porque o primeiro é mais livre e o segundo tem mais dinheiro. Mas não são inimigos, e existe até um grande número de documentários polivalentes que estão numa zona indefinida entre televisão e cinema.

A televisão está para o cinema como a música gravada está para a música ao vivo. Não é a linguagem que distingue os dois meios, mas as condições de recepção. O ecrã pequeno ou a sala escura determinam estilos narrativos e vivências muito diferentes. Que não são meios incompatíveis é evidente, tanto que os filmes de cinema passam sem problema na televisão; mas o inverso já não é válido. E há outros filmes de cinema (e muitos documentários) que as televisões evitam ou recusam passar, exactamente porque a televisão propõe (ou exige) um modo de recepção ligeiro.

A minha definição de cinema é: entrar numa sala escura e ficar lá até ao fim do filme. O cinema suscita uma vivência. A definição de televisão é em tudo oposta. E suscita uma indiferença. São irredutíveis, como experiência. Um filme não é o mesmo visto em sala de cinema ou em televisão.

12 abril 2006

Paranóia (3)

Desta vez fui eu a vítima contrariada da câmara de outros, uma câmara escondida numa carrinha preta de vidros negros, enquanto um rapaz jovial me interceptava no passeio: "A Gronelândia fica no hemistério norte ou no hemisfério sul?" - "No hemisférico norte, porquê?", perguntei eu, sem qualquer suspeita. "Acertou, obrigado por estar desprevenida", diz ele e dá-me 10 euros de prémio e afasta-se. Chamo-o: olhe, não quero os 10 euros, tome lá. E ele fingindo ignorar-me, ao fim de algumas insistências, lá me vem dizer que é para um programa da SIC. A parte cómica do "apanhado" é aquela em que recuso a nota e faço de parva, não a da pergunta inicial, apesar desta jogar com a minha inocência.

Depois aparece o "produtor" com um papel para eu assinar a autorização. "Olhe que ficou muito bem, não tem mal nenhum, nunca viu o programa?" Não vi de facto, nem assino, nem explico porquê. Há muitos anos que tenho a certeza de que não colaborarei num desses programas. Apesar de, no fundo, lhes achar tanta graça como toda a gente e de lhes reconhecer até um mérito raro: a capacidade para desmanchar o senso comum, a possibilidade de escalpelizar uma série de comportamentos-padrão, uma forma de diagnóstico cultural que nenhum outro meio obtém. Mas não consigo evitar a repugnância pelo método e o efeito de risada alarve que se sobrepõe à perplexidade latente. A carrinha negra (que por falta de presença de espírito não fotografei), essa então, acho sinistra.

12 outubro 2005

O pequeno ecrã


Um documentário com a grande sorte de ser apoiado pelo ICAM, terá também a sorte de ser passado na RTP, uma oportunidade de ser visto (no canal 2) por uns 100 mil espectadores, muitos mais do que os 200 de uma sala de festival. Apenas um inconveniente: o espectador de tv é, por natureza, desatento e inconstante. E um realizador é como um professor: gosta mais dos alunos atentos.

O meio-tv dificulta a imersão e não promove o debate. O espectador de uma sala de cinema não se cansa com um plano longo de 1 minuto, mas o de televisão zapa logo. Por isso, muitos realizadores criam estratégias intermédias ou ambivalentes de comunicação em dois canais diferentes. Na ficção, adoptando uma estilística do pequeno ecrã: grandes planos, montagem célere. No documentário, optando por fazer duas versões do mesmo filme, uma aprofundada, outra sintética. Há um filme para o espectador ideal e outro para o espectador distraído.

25 setembro 2005

Cem canais

Um amigo fez-me um reparo: nem tudo o que passa nas televisões é lixo. Sim, é verdade, mas não é esse o meu problema. Tudo o que passa no pequeno ecrã, e nós tratamos com a maior displicência, acaba por se igualar. Na tv, as imagens todas se equiparam, e nós sabemos fazer juízos muito rápidos - em menos de um segundo, sem sequer quase as vermos - sobre as suas mensagens. As imagens de televisão estão já todas codificadas. Como poderemos renovar o olhar ou descobrir alguma coisa com este método de scanning? O problema não está nas mensagens, está no meio. Este meio nivela tudo pelo lixo da porta ao lado. Pela minha saúde visual e pela saúde da minha actividade cinematográfica, preciso de rejeitar a indiferenciação dos cem canais.

23 setembro 2005

Sem memória


Dos 50 canais, só tenho pena de perder a RTP-Memória, que acho o canal mais informativo de todos. Desactualizado e por isso muito elucidativo do passado recente do meio de informação de massas chamado televisão. Este canal oferece-nos autênticas viagens no tempo, enquanto zapamos, e tanto caímos em 1969 no programa revisteiro Zip-Zip, onde vemos Almada Negreiros sentado na plateia (teria sido convidado para o programa nesse dia?), como somos transportados para 1995 em plena época de fogos. A televisão mudou com o mundo, ou o mundo é que mudou com a televisão?

Só este canal nos permite recuperar essa memória, o que é também um exercício mental de confronto com as raízes da nossa cultura mediática, que exactamente a outra televisão se encarrega de apagar, com a sua lógica do imediato e da emoção. A televisão, por definição, não tem consciência histórica. A RTP-M é um contraponto necessário.

Na televisão antiga, tudo nos aparece de uma singeleza artesanal que não tem paralelo nos efeitos sonoplásticos de hoje. Os telejornais emitiam notícias objectivas sem sal e pimenta e revelavam um comprometimento com princípios de que já ninguém se lembra. As entrevistas, por exemplo, estão feridas de uma honestidade antiga e desaparecida. Como aquela de um administrador de uma empresa, no pós-revolução, explicando, com uma modéstia que na época era correcta, e numa linguagem elegante e perifrástica, que não lhe cabia a ele fazer o elogio da sua empresa, e remetendo para informantes exteriores o conhecimento geral dos bons resultados empresariais... Ou os primeiros programas sobre música de António Victorino de Almeida, e vinte anos depois o mesmo compositor amarelamente sentado num palco de programa histérico a ouvir cantar Marco Paulo! Ou o reprise de uma entrevista ao escultor Lagoa Henriques, que por sua vez mostra excertos de um seu programa dos anos 70. Enquanto dura vou aproveitar.


22 setembro 2005

Sem cabo




Finalmente, dei o passo decisivo: cancelei a minha assinatura de tvcabo. Adeus lixo, adeus, não espero sentir a tua falta. Agora vou dedicar-me às prateleiras de livros ainda por ler. Que alívio.