25 setembro 2007

Metal y melancolia



Hoje, não perder na Cinemateca, às 19h30, o documentário de Heddy Honigman, Metal y Melancolia (1993).

22 setembro 2007

Alice ou não



Durante esta semana de festival, tem surgido amiúde nas conversas a discussão acerca do filme A Casa de Alice (uma história hetero, digamos) ter sido adequadamente escolhido para a abertura de um festival especialmente intitulado, vocacionado e dirigido a um público gay e lésbico – este ano onomasticamente assumido como queer.

O termo queer, aceite nos estudos académicos, aparentemente não tem tradução portuguesa, ainda. Mas poderia bem chamar-se festival maricas – expressão perfeitamente inocente que nos acompanha desde tenra idade e que tanto se aplica a meninos como as meninas – assinalando um pendor de sensibilidade que exactamente a cultura masculinista rechaça. Mas enfim, o uso das palavras é sempre uma questão delicada e o termo queer torna-se eventualmente mais sério e evita eventualmente a fuga dos espectadores com receio de serem conotados, apontados, confundidos, estigmatizados, gozados e todos esses medos do que os outros vão dizer que contaminam a saloia sociedade lisboeta.

Ora, voltando à casa de Alice, e resumindo o plot: Alice vive com o marido, os 3 filhos matulões e sua mãe. O marido anda com a vizinha do lado, adolescente. Alice é manicura e será seduzida pelo marido da sua melhor cliente. O filho que anda na tropa é prostituto gay. Há uma afectividade vagamente incestuosa entre ele e o irmão mais novo. Quando os rapazes brigam, saltam os insultos. Neste pequeno espaço doméstico, cruzam-se diversas e secretas sexualidades, perante o olhar da avó, atento e silencioso, num papel que se confunde com o nosso olhar de espectadores daquela humanidade em família. Mas, só nós, espectadores, sabemos que ela sabe e nada diz. Nem diz à filha que o marido a engana, nem comenta nem censura nem interfere. Esta avó, com longa experiência de vida, é a figura da tolerância e da aceitação das diferenças dos outros e sobretudo das suas sexualidades, quaisquer que sejam, independentemente das traições, das ambiguidades morais e das mentiras que elas representam.

Perguntava-me alguém (que não viu o filme): então é um filme contra o casamento machista? Não, não é contra nada. (Não é um filme heterofóbico.) É um filme onde se pratica a aceitação plena do humano naquilo que sempre o define tão bem, ao contrário do conhecido preceito que diz “não faças aos outros o que não queres que te façam a ti”. Pois é o que toda a gente faz, encaremos a realidade. Aceitemos a contradição dos actos.

Haverá melhor filme para abrir um festival destes e demonstrar, sem moralismos quaisquer, que toda a sexualidade tem a mesma origem, apenas variam as suas vivências, preferências e concepções?

Leituras recomendadas:
http://danieljskramesto.blogspot.com/2007/09/subtilmente.html
http://damnqueer.blogspot.com/2007/09/s-voltas-com-o-queer.html

12 setembro 2007

Cinema queer



Começa na sexta-feira, dia 14, o festival Queer Lisboa 11, nova designação que abrange sexualidades diversas e temáticas mais abertas do que o anterior título “gay e lésbico”. Todavia, afirma-se tanto como evento político quanto como um festival de cinema. Será o cinema queer um género? Ou existirá um olhar queer? Um olhar - diferente - que atravessa filmes de vários géneros, filmes que passaram os limiares da moral normativa e se aventuram noutras áreas da vida humana...

Na abertura, às 21h30 no cinema S. Jorge, será mostrado um filme que nem sequer parece nitidamente gay e etc. – A Casa de Alice, de Chico Teixeira – “um retrato vivencial cativante e que, mesmo firme numa vontade de mostrar o que pode ser real, não procura ser bandeira de qualquer discurso ideológico”. “Sexo, suor (e algumas lágrimas) moram naquele apartamento, onde um casamento há muito se desmoronou, e os desejos vivos de Alice feitos agora palavras, ora com clientes em sessões de manicure, ora entre colegas e amigas, à noite, de cervejinha na mão”.

O texto atrás citado retirei-o do catálogo e não pertence à sinopse oficial. Os programadores do Queer Lisboa – João Ferreira e Nuno Galopim - fizeram algo extraordinário, que é a primeira vez que vejo: sobre cada filme escreveram um texto de apresentação e análise, que essencialmente aborda cada filme enquanto obra cinematográfica. São excelentes textos e contribuem muito para nos interessar pela qualidade dos filmes.

Também será apresentado o meu documentário Fora da Lei (domingo, dia 16, às 15h30), cujo trailer fica aqui - mais o link para o blogue queer.

26 agosto 2007

Verão quente



Vale a pena não perder Torre Bela (1977) em versão de ecrã (uma versão mais curta existe em DVD editada pelo Público nos 30 anos do 25 de Abril). Este documentário foi filmado ao longo de 8 meses, desde 23 de Abril de 1975, data em que os trabalhadores locais ocuparam esta herdade ribatejana (e reporta-se até 1 de Dezembro de 1975, segundo legenda inscrita no final do filme, ao fim de 500 e tal dias, incoerência que não consigo verificar...).

A especial virtude deste filme, segundo tem sido dito e reforçado, está numa atitude observacional que interfere o menos possível com o real a acontecer e o traduz na sua vivacidade autêntica e irrepetível. (Aquilo a que se chama cinema directo, ou documentário de observação, onde não há uma voz tutorial a explicar e a dar sentido ao que vemos.) Esse olhar directo dar-nos-ia uma perspectiva da revolução popular isenta de mensagens ideológicas e substancialmente diferente dos documentários portugueses de então, demasiado militantes, onde se incluirá, suponho, um outro filme intitulado Cooperativa Agrícola Torre Bela (1975), de Luís Galvão Teles. Seria interessante comparar um e outro. Mas também houve outros filmes feitos no modo directo, e por isso importa relembrar alguns que talvez sejam os poucos: Continuar a Viver (1976) de António da Cunha Telles, Barronhos (1976) de Luís Filipe Rocha, ou Terra de Abril (1977) de Pierre Costantini e Anna Glogowsky (também editado em DVD pelo Público).

O modo revelador com que o documentário do alemão Thomas Harlan nos serve a realidade a quente, aproxima-nos daquelas pessoas e estabelece uma espécie de pacto de realização – que é um pacto de respeito por elas, mesmo por aquelas de quem não gosta, como o proprietário das quintas, o impertigado duque de Lafões. Este personagem do antigo regime apenas aparece no início, mas servirá de contraponto ao longo do filme para os excessos da população pobre e reivindicativa.

Todavia, o documentário não é assim tão objectivo como aparenta. É que se, por um lado, nos dá a ver mais do que esperávamos, por outro, não preenche uma série de lacunas que o espectador pode sentir, à medida que a ocupação das terras dura. Por exemplo, não chega a perceber-se como se organiza o trabalho das pessoas (se se organiza de facto), se ocupam o palácio e lá dormem, onde e quantos, ou que destino deram aos livros retirados das estantes e empilhados às dezenas, de onde vêm e voltam aquelas multidões que acorrem aos comícios aparentemente improvisados, e como percorrem os quilómetros de estradas que inicialmente vimos de helicóptero, que contactos houve afinal entre os trabalhadores e os patrões, apenas referidos mas não apresentados enquanto resoluções – todas estas são algumas das dúvidas que o filme não esclarece. Podemos perguntar-nos, naturalmente, se estas lacunas, na nossa compreensão dos acontecimentos, decorrem da falta de material – é compreensível que durante ano e meio (??) não estivesse sempre a câmara presente – ou de uma opção do realizador na mesa de montagem. As duas razões provavelmente: a montagem superando pelas suas opções ideológicas as lacunas da filmagem, como em todos os documentários, aliás.

Clarificando as suas opções, o documentário centra-se sobretudo em situações de interacção e elas parecem escolhidas e encadeadas segundo uma curva sinusoidal que faz suceder às situações de caos, situações organizativas, a estas sucedendo de novo o conflito. Neste conjunto, o realizador mostra uma atenção selectiva aos processos colectivos, mais do que ao conteúdo das suas discussões. Esta opção nem é difícil de compreender se observarmos como o homem da câmara (Russel Parker) filma quase sempre em plano-sequência e tenta captar as várias acções em jogo e os vários debates simultâneos. Ele, estrangeiro, que não podia entender o que as pessoas diziam, filma segundo os gestos e as interacções físicas. Mesmo nós, espectadores lusófonos, teremos dificuldade em acompanhar o que os protagonistas dizem, mas não teremos dificuldade em seguir as emoções e as intervenções – porque a isso estava muito atento o excelente cameraman. Para mim, este é um filme acerca dos processos de organização e conflitualidade humanos – e sobre a aprendizagem in loco da democracia e da cooperação – e não sobre a selvajaria do PREC ou os atentados à propriedade privada, que alguns facilmente deduzem. Dar a cada espectador a possibilidade de ler o filme à sua maneira é o mérito da realização, pois.

Porém, 30 anos passaram, e o ridículo daquele representante da aristocracia é suplantado pelo ridículo dos camponeses iletrados – que hoje, sim, fazem rir as plateias do cinema King, como se esconjurassem o passado rindo-se dos seus antepassados recentes ou das próprias memórias. Quando o homem da enxada não percebe o que é uma “comprativa”, dispara o riso pronto do burguês satisfeito, sem se dar à reflexão sobre as tensões entre o individual e o colectivo que ali se exprimem contraditoriamente. Quando um militar diz: “ocupem primeiro, depois virá a lei”, riem-se os bem-pensantes da sala, os que superiormente sabem que isso é uma estupidez, que primeiro tem que vir a lei. A esses faltava pôr a velha pergunta: onde estavam quando foi o (pós) 25 de Abril? E no escuro do seu anonimato, os cínicos rejubilam.

O que faz delirar o público do documentário – que é um público que nasceu na última década – é geralmente dar umas boas risadas à conta dos ridículos dos seus semelhantes, que lhes parecem tão diferentes. Uma espécie de reacção primitiva, desopilante e irreprimível. É a risota alarve de quem gosta de ver apanhados na televisão e com isso sai satisfeito da sala. O que era uma atitude, da parte do realizador, essencialmente de aproximação e compreensão do outro transmuda-se numa espécie de afastamento satírico por intolerância.

28 julho 2007

Leitura de férias



É tanto o spam que chega que não há geralmente tempo para o ler. Mas se o olharmos com mais atenção descobrem-se algumas maravilhas da literatura, da imaginação e do mundo desconhecido. Quem o decifrará? Dava uma tese de doutoramento.

«Due to the sudden death of my husband GeneralAbacha the former head of state of Nigeria in June 1998, I have been thrown into a state of hopelessness by the present administration.I have lost confidence with anybody within my country

«This is to inform you that your email has won a consulation prize of the Microsoft Corporation»

«My name is JOHN MALIK, son of late marketing chairperson of Sierra Leone diamond marketing board, who was killed by the rebel, Mr. Sigistmund Malik but late now

«This is to inform you that the Senate President, Senator Ken Nnamani have instructed me to release your Accrued Interest Payment Valued $15m into your Account and i have tried every thing humanly possible to contact you

«I am Miss.HUDA HADIL KASHIF, an Iraqi national, the only survival daughter of Mr. KHALID KASHIF,who is into oil marketing in Iraq

«Dear friend, Greetings to you in the name of our heavenly God. This mail might come to you as a surprise and the temptation to ignore it as unserious could come into your mind; but please, consider it a divine wish and accept it with a deep sense of humility

«I am Mr. Ming Yang.i have an obscured business> suggestion for you.I am here-by seeking your service in helping me recieve a large amount of money and in giving a clear research and> feasibility studies on areas I could invest on

«Though this medium (Internet) has been greatly abused, I choose to reach you through it because it still remains the fastest medium of communication

20 julho 2007

Isto é...



...uma experiência de poesia concreta em meio interactivo, por Ana Hatherly, pioneira da poesia concreta desde os anos 60: http://www.interact.com.pt/interact1/lab_1.html

18 julho 2007

Retorno



Documentários de Alain Resnais, hoje às 22h, na fábrica Braço de Prata - nova migração das livrarias Ler Devagar e Eterno Retorno - entre muitas outras actividades, diariamente partir das 22, 23, 24h. (Só acho o horário demasiado noctívago.)

15 julho 2007

O factor independente



Em Lisboa, ganham todos. O PS ganha sozinho a Câmara, pela primeira vez em 31 anos, disse António Costa. E diz Sócrates: é mais uma grande vitória do PS. Na verdade tiveram menos que 30% e ficaram abaixo dos dois candidatos afectos ao PSD que juntos somam 32%. Se não fosse a dissidência de Carmona, o resultado seria muito muito incerto, a favor do PSD. O PS deve-lhe a vitória. Carmona também se diz ganhador, pois confirmou no escrutínio a sua base de apoio pessoal, ignorando os interesses partidários pelos quais concorreu há dois anos e pelos quais se sentiu "traído" há 3 meses. Por outro lado, a esquerda combativa - Roseta, a CDU e o Zé/BE - juntos ganharam 5 vereadores, quase tantos como os 6 do PS ou do "PSD". Mas a CDU e Sá Fernandes mantêm os lugares que já tinham. Apenas Helena Roseta, afinal, vem roubar votos ao PS. Verificamos que bastaram dois desalinhados para estragar o equilíbrio táctico dos grandes partidos. A engrenagem agora é outra. A nova ordem política exige que saibam encontrar consensos ou maiorias.

Foto: Ao Fim da Noite (1991), de Joaquim Leitão

03 julho 2007

A cultura de merceeiro



«O presidente da administração de Serralves, Gomes Pinho, defende a extinção do Ministério da Cultura» (Público, 30 de Junho 2007). Diz que, com este “elemento quase simbólico”, quer “lançar o debate público sobre a matéria”. Curiosa pedrada de quem administra uma fundação cujo orçamento é pago pelo mesmo Ministério da Cultura a 50%. Na verdade, o “advogado e gestor” não pretende acabar com o financiamento do Estado às instituições culturais, apenas pretende alargar a privatização da cultura, cujo “serviço público” seria pago pelo estado.

Ou seja, em vez de serem os criadores a dirigir-se directamente ao MC para obterem apoios para as suas actividades, seriam os advogados e gestores da cultura a fazê-lo. Muito cómodo. Os criadores passariam a lidar portanto directamente com estes advogados de outra causa que não é certamente a mesma que a sua. Os advogados do gosto dominante, os angariadores de públicos para a cultura, que, muito oportunamente, recebem chorudos financiamentos estatais.

Ora, se existem iluminados capazes de fazer da cultura um negócio, para que há-de existir um ministério da cultura, sujeito ao escrutínio público, a contas públicas, à renovação periódica de ministros e directores de teatros e tudo o mais? Que desperdício. Entregue-se a tarefa aos burocratas da finança que eles se encarregarão, no anonimato dos seus gabinetes, de fazer valer a cultura que vale dinheiro – aquela que dá público e prestígio – e, já agora, facilitar os negócios de lavagem de dinheiro que o comércio da arte tanto ajuda. O paraíso.

Então e os concursos e as pontuações e os júris rotativos de especialistas de teatro e de dança e de cinema e de artes e de tudo o mais? Quem precisa de jurados e especialistas, quando o que interessa são os públicos? A cultura, diz ele, “tornou-se uma utility”. “Então é preciso reposicionar o Estado nisso, e ver a cultura a partir da óptica do fruidor, do consumidor”. Adeus cidadania, o direito à voz própria transforma-se em direito de consumir (pagando).

Assim, a independência face ao estado ficaria livre das “tentações – que são humanas – de imposição de gostos pessoais”, diz ele, querendo insinuar que os subsídios são dados por preferências políticas, “obviamente, porque os políticos não são santos”. Os decisores privados, esses seriam isentos. Grande falácia. Ora, é para isso mesmo que existem júris especializados, para evitar favorecimentos. De facto, só o Estado pode garantir, pela transparência das suas regras e regulamentos e legislações, a maior equidade.

Então e os artistas? Ora, que vão bater às portas e lamber as botas dos senhores poderosos, desses pseudo-mecenas que gastam o que não é seu, segundo o critério universal da sua arbitrariedade. Que se sujeitem às leis da ”concorrência internacional”. De que estará ele a falar? De cultura portuguesa? Esqueçam Portugal, agora estamos na Europa, no mundo. Como ele diz, “os talentos são muito móveis – não sei se serão tão móveis como o capital”. Brincamos? Os administradores da arte têm altas ambições para as suas cobaias, os “novos criadores” vendidos fresquinhos como as alfaces e trocados como um produto perecível de mercearia. A menos, claro, que os iluminados vejam neste e naquele talento firmado a lâmpada de Aladino dos cifrões, a estrela capaz embasbacar as massas e atrair a massa.

O problema destes gestores é a sua cultura de merceeiro, que lhes deve ser muito útil, mas que se distingue radicalmente da genuína cultura. O senhor Gomes Pinho não está a falar de cultura, senão de comércio e margens de lucro. Mas a autêntica cultura não é um negócio, nem o consumo da dita, nem um campo onde a concorrência dita as leis, como ele pretende.

A cultura é a necessidade humana de exprimir e criar segundo leis próprias. Para conseguir chegar aos outros, independentemente, muitas vezes, de obter ou não sucesso junto do público. O ideal da cultura é ser livre, gratuita, independente. A cultura é o amor do conhecimento, da descoberta, da investigação; é a invenção pura, a arte pela arte, a liberdade do gesto, a intervenção pública ou a necessidade de revolta.

Nada disto cabe na sua carteira de “programações com estabilidade”, de “contratualizar com o estado programas de cinco a dez anos com metas quantitativas e qualitativas”, de “uma política de atracção de talentos do estrangeiro”. Então, o ministério da cultura não tem como missão apoiar os criadores portugueses ou de Portugal? Para António Gomes Pinho parece que tem a missão de trazer criadores estrangeiros de prestígio para gerarem grandes movimentações de massas. É a síndroma Frank Gehry, a cultura dos novos-ricos, dos especuladores, das estrelas do poder.

O entrevistador, muito a jeito, pergunta-lhe se não gostaria de “pôr isso politicamente em prática, eventualmente num próximo governo”. Espantosa pergunta. Visto que o seu propósito é extinguir o MC e substituí-lo por financiamentos transversais a todos os ministérios – numa óptica promocional e utilitária dos objectivos desses sectores da economia – resta-lhe o tal lugar que há-de “substituir o MC, a nível de governo, por uma estrutura muito flexível junto do primeiro-ministro”. A ver se pega.

O Ministério da Cultura que tutela os museus e o património histórico, os monumentos arqueológicos, os arquivos de cinema, a memória das artes, os teatros nacionais, as orquestras e as companhias de dança, a biblioteca nacional e tudo o mais – tudo aquilo que é de todos nós, que é a nossa cultura comum – deve existir sempre para que tudo isso continue sendo património nacional.

Que vivam as fundações, mas não comam tudo. Agora querem todos ser berardos.

Imagem: Miguel Palma

29 junho 2007

O mistério de S. Pedro de Alcântara



O restauro das cantarias escultóricas do jardim de S. Pedro de Alcântara (cujos trabalhos foram interrompidos há bastantes meses, por falta de pagamento da CML) - que pude fotografar há pouco tempo, após a acção de derrube da vedação anunciada no blogue Incubadeira - mostra um tratamento altamente duvidoso de limpeza da pedra, que parece ter sido desgastada selvaticamente de um lado, e do outro... ainda não.


Também é de estranhar que o bebedouro pertencente ao mesmo património de "mobiliário urbano" tenha sido limpo e depois deitado fora. Precisam-se opiniões técnicas.


P.S. A empresa responsável é XIX Construção Projectos e Gestão, Lda (cujo site já não está online).

21 junho 2007

As 7 letras do arco-íris



Já repararam que, desde o ano passado, o Arraial Pride assumiu mais uma letra? LGBT e H de hetero. Isso quer dizer que todos os heterossexuais que apoiam e defendem direitos iguais para todas as categorias de género e orientação sexual, podem comparecer a manifestar-se e a festejar o S. João.
Mas estas letras ainda não abrangem tod@s. É que nem toda gente encaixa no modelo de parelha que aquelas letras descrevem. Assim como há famílias unipessoais, também haverá os que se contentam na sua unicidade e ainda os que dispensam orientações sexuais. Por isso, eu acrescentava ainda mais duas letras - O de onanista - e A de assexuado: LGBTHOA (que rima com Lisboa).

18 junho 2007

A graça dos insultos



Prado Coelho, hoje no Público, cita a famigerada DREN: "Sei muito bem distinguir entre o que é uma graça e um insulto." Ora, exactamente, vejamos qual a diferença entre uma coisa e outra. Um insulto é uma acusação feita directamente à pessoa alvejada, ou na sua cara, de forma a ser sentida como ofensiva, ou em situação pública, de modo a poder ser reportada ao próprio ou a ofender os seus amigos, apoiantes ou afectos. Uma graça distingue-se do insulto porque, não sendo dita na presença do próprio, não tem consequências ofensivas para o alvo. É o que acontece todos os dias e a toda a hora quando apelidamos de estúpidos, cabotinos, medíocres, filhos da mãe, etc., aqueles que bem nos apetece, mas que sabemos não irão tomar conhecimento da má-língua feita nas suas costas. Agora se alguém de má vontade for fazer queixinhas por sms! (lembro-me de como aprendi no contexto social da escola que pior que fazer um disparate era fazer queixinhas, no tempo em que a associação às denúncias pidescas ainda estava fresca) e tornar público o que foi dito em ambiente reservado - esse, o delator, é que está a transformar uma graça num insulto, é ele o culpado, o responsável por transformar uma "boca" num assunto público. Isto independentemente do que quer que o professor Charrua tenha dito, que aqui não interessa nada.

13 junho 2007

Regresso à pré-história



Será lançado - na próxima sexta-feira, 15 de Junho - o número 5 da revista Docs.pt, com dossier dedicado às relações entre televisão e documentário. Que o interesse das televisões pelo chamado documentário de criação, ou documentário social, ou documentário cinematográfico, é ténue, já se adivinhava. Mas, ao confrontar os agentes televisivos com as suas opções, percebemos então que voltámos à pré-história do documentário - em Portugal.

De que serviram 10 anos de actividade da associação Apordoc e de promoção, debate e divulgação de cinema documental? De que serviram 12 anos de festival da Malaposta, ao longo dos quais Manuel Costa e Silva foi educando um público que não existia e apoiando os criadores nacionais? De que serviram 4 edições cheias de público do festival Doclisboa, mais os pitchings do LisbonDocs, ou a programação de documentários exibidos em espaço próprio na RTP2 por Diana Andringa e Jorge Campos?

A RTP - serviço público - continua alheia à existência de documentários. A RTP2 continua a gabar-se de passar muitos documentários de animais e de "cultura portuguesa", tipo A Alma e a Gente - que são outro tipo de documentário, o chamado "documentário televisivo", com as suas regras próprias, a sua formatação, os seus limites. Mas por que ignora o potencial, o interesse e a existência de outro tipo de filmes? Os documentários - tanto, aliás, como as ficções de longa-metragem que durante anos tiveram espaço privilegiado na RTP2 (lembram-se das "5 noites 5 filmes"?) - desapareceram subitamente com a anterior direcção de Manuel Falcão.

A RTP2 de hoje, com a sobranceria que o seu director de programas Jorge Wemans demonstra na entrevista dada à Docs.pt, nega até a existência documentários portugueses. A pergunta feita pela Docs.pt é claríssima: “Então a RTP não exibe documentários portugueses porque não há?» E a resposta lapidar: «Claro! Pensa-se que há uma produção imensa e que a RTP2 não quer exibir.» Ora é isso mesmo que se pensa o que acontece.

Há muitos documentários em Portugal que a RTP não quer exibir: a maior parte dos documentários de que é co-produtora por via do protocolo de apoio ao cinema português que tem com o ICA. Têm-nos lá, são filmes financiados oficialmente, mas a RTP recusa-se a emiti-los e a devolvê-los à sociedade de onde provêm, que reflectem e a quem se dirigem, impossibilitando o seu escrutínio público, a existências de crítica, de discussão e de vozes diversas no espaço público de televisão (nem que fosse tarde e a más horas!).

Diz Wemans: «Sendo mais claro, eu acho que há documentários de autor que não foram feitos a pensar em televisão e que portanto eu, como programador, acho que não têm lugar na grelha.» E ainda diz: «Eu não tenho nenhum espaço televisivo permanente que corresponda à ideia mais estreita de documentário de autor e nem estou interessado em criá-lo porque acho que ele deve dialogar com outros documentários.» Ora, exactamente, parece-me que a ideia de documentário de Wemans é que é muito estreita e demonstra falta de visão e de conhecimento.

«É verdade que se o documentário de autor me surge como uma proposta em que eu não decidi nada, (...) que foi realizado por quem quis, com o olhar que quis, recorrendo aos financiamentos que pôde, esse documentário tem um espaço mais limitado na RTP2.» Ou seja, Jorge Wemans arroga-se, enquanto director de programas, o papel a ter uma palavra sobre o olhar e a realização de cada filme, recusando-se a entender que documentário-de-autor é realmente de autor, e não de programador. Parece não saber que fazer um documentário é uma actividade que se exerce no campo da liberdade de expressão, tal como um livro, uma crónica ou um debate televisivo. Só a diversidade pode garantir a liberdade de expressão.

Não cabe a um programador impor o seu programa estético e ideológico centralizado, mas dar abertura e espaço a que a diversidade de perspectivas se manifeste e chegue aos seus interlocutores: a sociedade, o público. O programador deve servir o espectador, não enquanto público-alvo, como em publicidade e televisão comercial, mas enquanto sociedade – isso é que é serviço público.

Houve já muitos exemplos de como este tipo de documentário – até pelo seu conteúdo social e humano – encontra boa recepção junto do público e consegue afirmar a sua identidade na criação de novos públicos. Mas a RTP parece não se interessar por essa coisa – que é serviço público – que é criar novos públicos e promover a cultura. Para Wemans, serviço público é “a nossa iniciativa fundamentalmente centrada nos documentários sobre a cultura e património português”, visão tradicional e estreitíssima do conceito de documentário. A televisão portuguesa ainda não passou o cabo Bojador, como diz José Manuel Costa noutro artigo da Docs.pt.

Não te parece, leitor, que a obrigação moral da RTP seria exibir os documentários portugueses e cumprir um serviço público que “se a RTP não fizer, ninguém mais fará” (como diz Leena Pasanen acerca da televisão finlandesa)?

10 junho 2007

Cronograma



O cinema português de ficção consultável num prático cronograma visual em http://www.amordeperdicao.pt/crono_fr.asp .

09 junho 2007

Acontece em Coimbra



Um excelente blogue dirigido por Manuel Portela, acerca das actividades do TAGV: www.blogtagv.blogspot.com.

Na foto: conferência de Alberto Pimenta.

02 junho 2007

A santificação



Manoel de Oliveira será talvez o primeiro realizador a receber tal distinção: "cineasta do Sagrado"*. O júri do Secretariado Católico Para a Cultura destaca os filmes Acto da Primavera, Le Soulier de Satin, O Meu Caso e Palavra e Utopia. Mas outros há, mais iconoclastas talvez - O Passado e o Presente, pela ridicularização do sagrado matrimónio; ou Benilde ou a Virgem Mãe, desfazendo em perversidade o dogma da imaculada concepção; ou O Convento, habitado pela disputa entre Deus e Satanás - que se prestam a leituras ambivalentes, sem deixarem, claro está, de pertencer ao "percurso de um criador extraordinário, que sempre buscou, a partir do elemento espiritual, alargar a reflexão acerca da condição humana".

Como dizia João César Monteiro, "Manuel de Oliveira, no contexto português, faz parte da pequena minoria de cineastas católicos (os outros são Paulo Rocha e, numa escala bem modesta, o autor destas linhas) para quem o acto de filmar implica a consciência de uma transgressão. Filmar é uma violência do olhar, uma profanação do real que tem por objectivo a restituição de uma imagem do sagrado, no sentido que Roger Caillois dá à palavra. Ora essa imagem só pode ser traduzida em termos de arte, no que isso pressupõe de criação profundamente lúdica e profundamente ligada a um carácter religioso e primitivo."** Ou aquilo que o SCPC cita como "a nossa insaciável fome de Deus".***

* Público de 02 Junho 2007, p. 12.
**João César Monteiro, "Um necrofilme português", Diário de Lisboa (Suplemento Literário), 10 Março, 1972, in Morituri te Salutant, ed. &ETC, 1974.

***José Régio

29 maio 2007

Pai e Filho



O diário do pai Quinze - de 15 em 15 dias - e as surpresas do menino Pedro:

«Ontem trazia uma novidade.
- O pai não é meu pai!
Acontecem estas revelações, não costumam ser os filhos a fazê-las, mas acontecem. Preparado para tudo não dei de mim quando perguntei:
- Não sou teu pai?
- Não. Nós somos todos filhos de Jesus e da Santa Maria e por isso o pai é meu irmão. Não é meu pai. Os meus amigos também são meus manos. Na Terra somos todos manos uns dos outros. (...)»

24 maio 2007

Cine Farol



Um novo blogue de cinema, com uma dúzia e meia de bloguistas que hão-de dar que ler e ver: cineclubefaro.blogspot.com.

23 maio 2007

Doc site



A Apordoc, Associação pelo Documentário, tem um site renovado, que passa a ser a praça central de todas as informações úteis, indispensáveis e actuais acerca de documentário, entre as quais o acesso à pesquisa na base de dados de filmes da sua videoteca. Uma morada a fixar: www.apordoc.org.

22 maio 2007

O Salto (2)



Quem não viu não sabe o que perdeu. Mas o Nuno poupou-me o trabalho de o explicar: leiam Le grand saut.

21 maio 2007

O Salto



Hoje no Instituto Franco-Português, às 22 horas, O Salto (1967), primeira obra de Christian de Chalonge, um filme sobre a emigração portuguesa para França, a única ficção feita sobre essa realidade, que no cinema português da época ficou eclipsada. Representou França no festival de Veneza e teve um prémio Jean Vigo. Com música de Luís Cília.

17 maio 2007

Aos leitores



Prevendo a incerta regularidade da minha escrita aqui, aconselho os leitores mais assíduos a usarem o google-reader, que faz a actualização automática dos novos posts, evitando andarmos a passear por blogs parados.

Foto: instalação de Joan Brossa, exposta em Janeiro no Instituto Camões.

16 maio 2007

Hoje não perder



O Passado e o Presente (1971) de Manoel de Oliveira, na Cinemateca às 19h30.

«Num filme cuja inspiração é, por vezes, tão intensa que dá a sensação de querer constantemente escapar-se ao controle do autor, estamos aqui, talvez, perante um daqueles fenómenos em que os acasos da criação ultrapassam o próprio criador e, porque não dizê-lo?, se insurgem contra a sua própria ideologia.»

João César Monteiro, "Um necrofilme português", Diário de Lisboa (Suplemento Literário), 10 Março, 1972, in Morituri te Salutant, ed. &ETC, 1974.

15 maio 2007

Conflito cognitivo



Helena Roseta, a mulher-política que mais admiro e que em 30 anos de democracia foi sistematicamente posta de lado, porque "diz sempre o que pensa".
José Sá-Fernandes, em quem votei e que merece ser premiado pela excelência dos serviços prestados.
António Costa, o melhor que o PS tem.
Um autêntico quebra-cabeças. Em quem votar?

O segredo espanhol



O Público de hoje anuncia a onda de calor deste verão. Os gráficos de 2003 evidenciam as mortes por calor, mas a Espanha escapa. Qual é o segredo?

13 maio 2007

A voz dos leitores



No Público de hoje, o provedor dá voz às objecções dos leitores de Pessoa a propósito de um apócrifo publicado (como aqui também assinalei).

A Laurinda Alves, talvez para se redimir, na sexta-feira passada, enche a sua página de crónica só com poemas transcritos - o que não deixa de ser um sintoma alarmante de uma preguicite bem paga.

11 maio 2007

Hollywood, Portugal



«Nunca fui ambicioso de dinheiro, que reputo o maior dos males necessários. Ambicioso, sim, e de que maneira!, de paz de espírito, de conhecimentos, de amor, de amizade, de gostar de gostar... Por singular ventura, nem tudo o dinheiro compra. As melhores coisas do mundo, não há dinheiro que as pague!... Por isso, a intenção de ganhar mês a mês o que em toda a vida não ganhei ficou aquém daquelas noções elementares de brio e de dignidade que aprendi em pequenino. Conquanto não sequioso de dinheiro, sem dúvida que a chuva de dólares em perspectiva (com um convite para trabalhar em Hollywood, em 1939) possuía inegáveis atractivos. Com ela, poderia concretizar muitos sonhos que irão comigo para a cova: um laboratório para determinadas investigações científicas, um iate à prova de ciclones, um fishing cruiser para a pesca grossa, uma casa nas Bahamas, outra na Polinésia, correr o mundo atrás do verão sem carecer de previamente me subordinar a cálculos milimétricos de despesas, poder substancialmente ajudar uma data de gente que o merece, etc. - cabendo neste "etc." tudo o que é agradável de com deleite efectuar ou saborear. Simplesmente não pôde ser, não podia ser. Demais a mais - apegado a um idealismo romântico (admito que se classifique de idiota, não me ofendo...)-, o partir para a América, virando as costas ao tão sonhado sonho dum cinema português, aparecia-me como acto condenável: renúncia, fuga, deserção, cobardia... A verdade era que intimamente ansiava por um pretexto para não ir. Afinal, nem pretexto foi preciso, pois surgiu um obstáculo sem possível remoção. O contrato, a que só faltava a minha assinatura, teria duração de cinco anos, durante os quais eu dirigiria quatro filmes por ano. Contudo, encerrava um cláusula a meu ver inaceitável: a casa produtora californiana ficava com o direito de exibir os meus filmes no todo ou em parte, de fraccioná-los, de alterá-los, de lhes juntar novas cenas se assim o entendesse - enfim, podia fazer deles tudo o que lhe aprouvesse, desde pentes de algibeira a cabos de guarda-chuva, pensei eu... Notados ao produtor-delegado os meus reparos a essa cláusula, o "caso" arrastou-se por três dias em infrutíferas conversas telefónicas de cá para a América e da América para cá. "Que o contrato era igual para toda a gente, que se tratava de um pró-forma, que eu deveria compreender que a companhia não poderia eliminar qualquer cláusula por uma questão de princípios..." Ora comigo passava-se exactamente o mesmo... "Que, perdão!, a companhia é que deveria compreender que só por uma questão de princípios é que eu não poderia aceitar essa cláusula..." O Jean Renoir, então hospedado no Avenida Palace onde as conversações tiveram lugar - e que assinou idêntico contrato -, bem se esforçou por me convencer a acompanhá-lo, mas não pôde ser, não podia ser...»

Jorge Brum do Canto, in Observador, 1973, citado no catálogo da retrospectiva na Cinemateca de 1984.
Foto de A Canção da Terra (1938) de Jorge Brum do Canto.

04 maio 2007

Diálogo com a autoridade



Manifestação de apoio aos países em vias de extinção - Dez. 90 - Lisboa.
Excerto do documentário Geração Feliz: http://felizes.planetaclix.pt/o_filme.htm

25 abril 2007

A espuma dos filmes



No Indielisboa, documentários, sobretudo, é o que tenho visto, na exiguidade do tempo e na impossibilidade de abarcar o universo esmagador do seu catálogo; pelo menos as sessões não estão completamente esgotadas, como nos anos passados, mas também os espectadores estão desarmados e sem conseguir esgotar o programa à la carte.

A sensação de imponderabilidade de tudo isto, a de um programa que ultrapassa a nossa capacidade de abrangência, a da proliferação de vozes que invalidam a ilusão da escolha, os banhos de água fria que a diversidade de filmes e linguagens oferece, a sucessão das imagens, a sequência alucinada de curta em curta, a ausência de pausas, as impressões confundidas, a técnica de filmagem e montagem cada vez mais sincopada, ou concentrada, ou negligenciada – tudo isto já não é cinema. É fusão, cadência de impressões, doses fortes de imagens. Onde não sobra tempo para digerir nem reflectir, nem ler, nem escrever. É a cultura visual do teledisco em formato de ecrã de cinema. Não há nada entre um filme e outro, nem ideias, nem vida, só uma espécie de consumo aleatório, cansativo; já nem há partilha nem diálogo sobre os filmes, não há quem lhes chegue.

Como eu gostava que, em vez de um Indie por ano, houvesse indies todo o ano, todas as semanas, mas parece que nem isso é compatível com a lógica dos eventos que governa a rentabilidade dos festivais. Embuchar, desembolsar, rebentar e voltar à normalidade, até para o ano, fingindo que não há filmes todos os dias e em toda a parte a serem feitos e a precisarem de ser vistos por espectadores frescos e capazes de deglutir e reflectir.