03 julho 2007

A cultura de merceeiro



«O presidente da administração de Serralves, Gomes Pinho, defende a extinção do Ministério da Cultura» (Público, 30 de Junho 2007). Diz que, com este “elemento quase simbólico”, quer “lançar o debate público sobre a matéria”. Curiosa pedrada de quem administra uma fundação cujo orçamento é pago pelo mesmo Ministério da Cultura a 50%. Na verdade, o “advogado e gestor” não pretende acabar com o financiamento do Estado às instituições culturais, apenas pretende alargar a privatização da cultura, cujo “serviço público” seria pago pelo estado.

Ou seja, em vez de serem os criadores a dirigir-se directamente ao MC para obterem apoios para as suas actividades, seriam os advogados e gestores da cultura a fazê-lo. Muito cómodo. Os criadores passariam a lidar portanto directamente com estes advogados de outra causa que não é certamente a mesma que a sua. Os advogados do gosto dominante, os angariadores de públicos para a cultura, que, muito oportunamente, recebem chorudos financiamentos estatais.

Ora, se existem iluminados capazes de fazer da cultura um negócio, para que há-de existir um ministério da cultura, sujeito ao escrutínio público, a contas públicas, à renovação periódica de ministros e directores de teatros e tudo o mais? Que desperdício. Entregue-se a tarefa aos burocratas da finança que eles se encarregarão, no anonimato dos seus gabinetes, de fazer valer a cultura que vale dinheiro – aquela que dá público e prestígio – e, já agora, facilitar os negócios de lavagem de dinheiro que o comércio da arte tanto ajuda. O paraíso.

Então e os concursos e as pontuações e os júris rotativos de especialistas de teatro e de dança e de cinema e de artes e de tudo o mais? Quem precisa de jurados e especialistas, quando o que interessa são os públicos? A cultura, diz ele, “tornou-se uma utility”. “Então é preciso reposicionar o Estado nisso, e ver a cultura a partir da óptica do fruidor, do consumidor”. Adeus cidadania, o direito à voz própria transforma-se em direito de consumir (pagando).

Assim, a independência face ao estado ficaria livre das “tentações – que são humanas – de imposição de gostos pessoais”, diz ele, querendo insinuar que os subsídios são dados por preferências políticas, “obviamente, porque os políticos não são santos”. Os decisores privados, esses seriam isentos. Grande falácia. Ora, é para isso mesmo que existem júris especializados, para evitar favorecimentos. De facto, só o Estado pode garantir, pela transparência das suas regras e regulamentos e legislações, a maior equidade.

Então e os artistas? Ora, que vão bater às portas e lamber as botas dos senhores poderosos, desses pseudo-mecenas que gastam o que não é seu, segundo o critério universal da sua arbitrariedade. Que se sujeitem às leis da ”concorrência internacional”. De que estará ele a falar? De cultura portuguesa? Esqueçam Portugal, agora estamos na Europa, no mundo. Como ele diz, “os talentos são muito móveis – não sei se serão tão móveis como o capital”. Brincamos? Os administradores da arte têm altas ambições para as suas cobaias, os “novos criadores” vendidos fresquinhos como as alfaces e trocados como um produto perecível de mercearia. A menos, claro, que os iluminados vejam neste e naquele talento firmado a lâmpada de Aladino dos cifrões, a estrela capaz embasbacar as massas e atrair a massa.

O problema destes gestores é a sua cultura de merceeiro, que lhes deve ser muito útil, mas que se distingue radicalmente da genuína cultura. O senhor Gomes Pinho não está a falar de cultura, senão de comércio e margens de lucro. Mas a autêntica cultura não é um negócio, nem o consumo da dita, nem um campo onde a concorrência dita as leis, como ele pretende.

A cultura é a necessidade humana de exprimir e criar segundo leis próprias. Para conseguir chegar aos outros, independentemente, muitas vezes, de obter ou não sucesso junto do público. O ideal da cultura é ser livre, gratuita, independente. A cultura é o amor do conhecimento, da descoberta, da investigação; é a invenção pura, a arte pela arte, a liberdade do gesto, a intervenção pública ou a necessidade de revolta.

Nada disto cabe na sua carteira de “programações com estabilidade”, de “contratualizar com o estado programas de cinco a dez anos com metas quantitativas e qualitativas”, de “uma política de atracção de talentos do estrangeiro”. Então, o ministério da cultura não tem como missão apoiar os criadores portugueses ou de Portugal? Para António Gomes Pinho parece que tem a missão de trazer criadores estrangeiros de prestígio para gerarem grandes movimentações de massas. É a síndroma Frank Gehry, a cultura dos novos-ricos, dos especuladores, das estrelas do poder.

O entrevistador, muito a jeito, pergunta-lhe se não gostaria de “pôr isso politicamente em prática, eventualmente num próximo governo”. Espantosa pergunta. Visto que o seu propósito é extinguir o MC e substituí-lo por financiamentos transversais a todos os ministérios – numa óptica promocional e utilitária dos objectivos desses sectores da economia – resta-lhe o tal lugar que há-de “substituir o MC, a nível de governo, por uma estrutura muito flexível junto do primeiro-ministro”. A ver se pega.

O Ministério da Cultura que tutela os museus e o património histórico, os monumentos arqueológicos, os arquivos de cinema, a memória das artes, os teatros nacionais, as orquestras e as companhias de dança, a biblioteca nacional e tudo o mais – tudo aquilo que é de todos nós, que é a nossa cultura comum – deve existir sempre para que tudo isso continue sendo património nacional.

Que vivam as fundações, mas não comam tudo. Agora querem todos ser berardos.

Imagem: Miguel Palma

3 comentários:

rui mota disse...

De acordo. Mas, então que o MC aumente os seus míseros 0.4%, no orçamento de estado, para uma percentagem significativa (1%?) e faça o que lhe compete, para evitar os "Berardos" deste país.

PC disse...

Só concordaria ainda mais contigo se o mundo fosse perfeito...

Anónimo disse...

Leonor, fartei-me de rir com este teu texto. Deixa lá."Eles" vão ganhar, disso não tenhamos a menor dúvida. Só nos resta esperar que os ditos cujos caiam no buraco que andam a escavar. Entretanto, o melhor que tempos a fazer é irmos preparando as pás para que os possamos enterrar ainda mais fundo...

Sérgio