31 março 2007

Ante-estreia

do documentário Grandes Esperanças de Miguel Marques,
no dia 3 de Abril, terça-feira, às 21h30, na Cinemateca.



Este documentário é o resultado de um mês de filmagens contínuas na Loja do Cidadão do Porto. Entrar nos meandros da burocracia já é uma aventura q.b. cómica. Mas este filme dá-nos uma visão de conjunto única dos mecanismos de legitimação do indivíduo perante o estado, mostrando como toda a nossa existência depende, do nascimento à morte, da Instituição que organiza a vida em sociedade e que aqui aparece exposta num somatório de casos individuais que, em conjunto, tomam uma dimensão abstracta e coerciva. E só lhe vemos a ponta do icebergue.

É o retrato de um sistema, onde todos nos reconhecemos, pelo qual existimos. Mas também é um filme simplesmente humanista, focado nas dificuldades do indivíduo em defrontar as leis a que não pode fugir. É um filme revelador como uma esponja impregnada de sabão ideológico. É um filme radical, nos meios, no ponto de vista e nas ilações. Não percam, porque pode ser uma oportunidade única...

9 comentários:

Tiago disse...

Leonor, infelizmente não poderei ir amanhã à Cinemateca, mas gostaria muito de ver o documentário. Como o poderei fazer?

Leonor Areal disse...

Não sei quando voltará a passar, mas podes contactar o realizador: miguel.marques70(at)gmail.com

miguel marques disse...

deixo a folha de sala para motivar os mais indecisos....

Grandes Esperanças
Ano de produção/ 2006; Duração/ 74'; Autoria e Realização: Miguel Marques; Fotografia: Miguel Marques, António Osório e Filipe Ribeiro; Post-Produção de Som: Jonathan Saldanha; Post-Produção de Imagem: Paulo Pielle; Assistentes de Realização: Ana Roseira, Joana Peixoto; Montagem: Miguel Marques com Luísa Marinho e Leonor Areal; Direcção de produção: António Costa Valente; Produção: Cine-Clube de Avanca; Apoio Icam/Formação.

“ Entrar nos meandros da burocracia é uma aventura q.b. cómica.
Grandes Esperanças dá-nos uma visão de conjunto e quase trágica dos processos de legitimação do indivíduo perante o Estado, mostrando como toda a nossa existência depende, do nascimento à morte, da Instituição que organiza a vida em sociedade e que aqui aparece na sua dimensão abstracta e coerciva.
E só lhe vemos a ponta do icebergue.” (LA)
http://www.youtube.com/watch?v=2nZKSy6f2aE
http://www.youtube.com/watch?v=lqJmGW7qNAw
http://www.youtube.com/watch?v=21ZmFETUhIg

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A rodagem de ‘Grandes Esperanças’ aconteceu na Loja do Cidadão das Antas no Porto entre meados de Janeiro e inicio de Março 2006. Durante esse período foram registadas 38 horas.

Iniciámos a rodagem com um guião muito simples: procurando o carácter vectorial na circulação no espaço seguimos o percurso dos utentes; para perceber as suas motivações (e enredos) registámos os atendimentos. Sabíamos que, pelo grau de imprevisibilidade e complexidade dos procedimentos, os intervenientes iriam forçosamente encontrar obstáculos vários à resolução do seu “caso”. Por não ser ponto de partida, evitámos centrar o olhar nas situações que apontavam para uma má prestação de serviços.

O modelo de comunicação (Lojas) entre o estado e o cidadão tem cerca de 8 anos, e pelo carácter pacificador do seu conceito, está em franca expansão. Para eliminar fontes de conflito e a existência de produção imperfeita nas instituições representadas, pagamentos em atraso e algumas formas de reclamação ficaram nos serviços centrais, tornando assim o espaço propício para realidades conformes e ordeiras.

Face aos serviços e ao atendimento, percebe-se que as alterações de legislação e o elevado número de procedimentos burocratizantes levam a um desconhecimento dos procedimentos por parte do utente. A fragilidade que os nossos intervenientes manifestam vem desse alheamento. Num espaço de identidade supervisionada, centenas de seres frágeis e amedrontados com a possibilidade de confronto com o outro, expõem a sua privacidade, na procura de um “algo” que os ajude a compreender as suas opções pessoais e significado das mesmas. Este tipo de estrutura é sentido, resolvido e pacificado com a construção de estados de alma propícios: muitas vezes constritos, litúrgicos, diligentes e supersticiosos.

Na fusão das ideias de cidadania, consumo e contemporaneidade faz-se circular uma imagem de hiperprodutividade. Na difusão das aparências, dos efeitos do meio artificial, económica e culturalmente, assistimos à construção de um “projecto global”, irreversível e baseado na evolução tecnológica. Servir ou submeter? É na ambiguidade reflexiva destes termos que vos proponho assistir à projecção deste trabalho.

Este projecto foi possível porque o Cine-Clube de Avanca contou com o apoio para a formação da parte do MC/ICAM, no âmbito do qual decorreu a rodagem. Quero terminar agradecendo à Luísa Marinho e à Leonor Areal, por serem as pessoas que mais acreditaram e defenderam o projecto, e à Cinemateca Portuguesa a disponibilidade para apresentação deste trabalho em sala.

Miguel Marques

menina Loló disse...

Leonor, não me dá jeitinho nenhum ver hoje mas talvez pudesses dar uma palavrinha ao realizador para se ele não se importasse vir a minha casa num dia destes a uma hora que me desse jeito projectar o filme e já agora se ele não se importasse passava também pela loja de convieniência e trazia um pacote de leite e uma garrafa de água (sem gás) que eu depois pago.

jo flow disse...

raios e coriscos, acho que fiz uma má escolha, fui à ante-estreia do david lynch e se calhar tinha gostado mais de ver as grandes esperanças.

bem, se houver pão de ló eu posso levar a água.

alguém foi? comentários?

Pedro disse...

Quanto a mim este documentário tem um problema: parte de um pré-conceito, de que a burocracia é um empecilho desnecessário que só existe para nos complicar a vida, e que dá sempre origem a situações algo absurdas. Fiquei com a sensação de que o critério com que foram seleccionadas as cenas privilegiou esse lado absurdo e anedótico, em vez de tentar mostrar simplesmente o que se passa. Nesse aspecto, é de facto "um filme revelador como uma esponja impregnada de sabão ideológico" -- o que não sei se será propriamente um elogio... Uma maior neutralidade não ficava mal. Se bem que outra leitura possível é a de que os heróis do filme são os burocratas, confrontados com pessoas que nem sequer sabem preencher um número de contribuinte, ou que deixam arrastar situações porque não têm paciência para pensar nisso. Daí que (se calhar involuntariamente) o filme não está só propriamente "focado nas dificuldades do indívíduo em defrontar as leis a que não pode fugir" mas também numa certa inépcia (que tem visivelmente a ver com a iliteracia na grande maioria dos casos que são mostrados) das 'vítimas' da burocracia. É verdade que o discurso dos responsáveis parece um bocado oco e desastrado, mas também é verdade que este dispositivo burocrático foi um grande avanço em termos de atendimento ao público, e isso não transparece -- mas isso seria outro filme, é verdade. Bom, em suma, acho que o filme ganhava bastante com uma postura mais neutra.

manuel disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
manuel disse...
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manuel disse...

Deduzo que "Grandes esperancas" foi um titulo escolhido ironicamente. A meio do filme, depois de nos ser dito dezenas de vezes que humanidade e' incompativel com o preenchimento de qualquer documento escrito, fingimos acreditar para tentar ver no filme algo para ale'm disso. O efeito melodramatico da batalha entre o fragil ser humano contra a maquina burocratica tem o seu ponto alto, ou baixo, quando uma mulher com dificuldade, ou preguica, em preencher o IRS promete que o fara' melhor quando tiver "no outro mundo". Gosto muito de outra cena onde uma mulher luta para ter 1,50m no BI, confrontado-se com a inflexibilidade da funcionaria.
Uns funcionarios de uma maquina burocratico implacavel, os outros frageis e inocentes "canas ao vento", e no entanto a realidade (real ou artistica) e' mais complexa e interessante do que isso.

Uma ultima nota, sugerida por uma outra cena do filme, esta mais de indole politica, gostaria que a nossa lei de cidadania fosse alterada, quem nasce em Portugal deveria ser automaticamente cidadao portugues. Adopte-se a lei dos EUA rompendo a tradicao racista da velha europa.