04 dezembro 2005

O gene fascista



Na Culturgest, um “documentário” japonês sobre pós-adolescentes que vivem a sua solidão urbana em pequenos quartos conectados à internet. A moda lolita-gótica (estilo boneca de porcelana) aparece como uma forma de encontrar uma identidade substituta da falta de sentimento de individualidade. A mania – ou hobby - de colocar minúsculas câmaras de video para espiar pessoas nos seus apartamentos ou nas casas de banho públicas, mostrando-as num site de internet chamado Peep TV Show (o título do filme de Yutaka Tsuchiya), serve de fio narrativo principal. Outros personagens cruzam este terreno das comunicações virtuais, entre linhas eróticas interactivas e replays do ataque de 11/9.

É um filme perturbador, opressivo, não apenas pelo tema (que bem poderia integrar-se no actual ciclo de cinema Vigiar e Punir), mas pela estética fragmentada, convulsa, ruidosa, torturada. Um filme terrível, centrado em personagens alienadas e voyeuristas. Apresentado como um documentário, pareceu-me, a mim e a outras pessoas, uma pura ficção. É certo que muitos filmes hoje navegam numa zona indefinida entre ficção e documentário. Mas acho que um documentário só o é se conseguir estabelecer com um mínimo de clareza que referente real é o seu. O que não acontece aqui. Nunca percebemos que real está para além desta história, que toda ela parece inventada e conduzida para chegar a um final conclusivo: o dia de aniversário do ataque de 11 de Setembro.

Filmado com uma cadência e variedade de ângulos que, analisados, vemos que teria que haver uma dúzia de operadores móveis em campo, mesmo usando a técnica de multi-mini-câmaras-simultâneas, ou que as cenas foram construídas e repetidas várias vezes como se faz numa ficção - é difícil perceber que isto seja um documentário a não ser por um equívoco qualquer, ou por uma hipotética autenticidade dos personagens convocados para agirem dentro de uma acção planeada e aceitando fazer o seu próprio papel enquanto executantes do desafio de se encontrarem por procuração do realizador...

Há um countdown diário, que começa a 15 de Agosto de 2002 e vai até 11 de Setembro, dia em que os dois protagonistas se fazem participar, em projecção, no ataque às torres gémeas. A obsessão e o fascínio por esse acto terrorista é comum a outras personagens secundárias e é visto como um teste à capacidade de sentir emoções e dar sentido de realidade às imagens omnipresentes de televisão. O problema da sensibilidade é permanente neste jogo de limites. A lolita principal debate-se com essa necessidade de sentir algo para além da irrealidade que a televisão lhe ensinou. E nem sequer a visão em peep tv show do namorado a fornicar a amiga “como macacos” consegue comovê-la. Quando o rapaz protagonista sufoca um gato dentro de um saco de plástico, já algumas emoções mexem, contraditórias: mata, tira, esfola... E quando ele mesmo se mete dentro do saco debatendo-se, consegue levar à histeria uma espectadora online. Os personagens reflectem periodicamente sobre a sensação de falta de realidade, que afinal procuram, não no exterior, não na relação com outros, mas na sua reacção às imagens mediatizadas imperantes.

Em todo o caso, ficção ou não, é um filme que apresenta, com uma lente de aumento impressionante, a tentação, actualmente quase irresistível, para espiar a vida dos outros, como parece que já fazem os poderes judiciais em Portugal, impunemente, com as suas escutas telefónicas ad-hoc, como claramente denuncia Miguel Sousa Tavares no Público de 2 de Dezembro.

1 comentário:

Hugo Bola II disse...

Logo depois de ver o filme, na parte saborosa que é discuti-lo com amigos, as opiniões fizeram aquilo que os corpos e as cabeças fazem quando lhes cai a lâmina de uma guilhotina em cima. Como de costume, acho que me calhou a cabeça, único ponto em que me pareceu estarmos todos de acordo (que cada um tinha razão, não eu a cabeça). Achei o filme: adolescente, pretensioso, betinho. Não desgostei, porque era Japão. Nem por ser um falso doc: como se fosse ficção ninguém o mamava, o rótulo doc perdoa a ineficácia da retórica narrativa. Mas não simpatizei com o drama adolescente,pós-punk (30 anos tarde demais), baby-gótico, no mais suburbano e literal sentido do baby. Aquele niilismo não é sequer japonês, apenas de Teens de Rans pateticamente autocentrados.