07 outubro 2005

O novo surto do documentário

Nos anos 90 deu-se um renascimento do documentário em Portugal, estimulado pelo crescimento do sector audiovisual e das televisões que tornaram mais acessíveis as câmaras de vídeo. Lá para 99, começaram a aparecer as câmaras digitais que permitiram o grande boom de documentários dos últimos anos, traduzido não apenas em número de filmes produzidos, mas num crescente interesse por este género, que a afluência de público aos festivais demonstra, e no surgimento de pequenos cursos de realização dos ditos.

Para dar uma ideia relativa dessa evolução, baseio-me nos catálogos dos antigos Encontros Internacionais de Cinema Documental Amascultura (vulgo Malaposta), organizados desde 1990 por Manuel Costa e Silva, que acolhia quase sem reservas qualquer filme nacional, já que eram tão poucos. Eis o levantamento do número de documentários portugueses, ou sobre Portugal, vistos na Malaposta durante 12 anos:

1990: 4 filmes + 4 filmes de António Campos (retrospectiva)

1991: 5 filmes

1992: 1 filme + 8 da RTP (homenagem)

1993: 3 filmes + 2 vídeos + 6 documentários de Fernando Lopes (homenagem)

1994: 1 filme + 7 vídeos + 5 filmes (comemoração de 20 anos do 25 de Abril) + 5 documentários de Manoel de Oliveira (retrospectiva)

1995: 2 filmes + 16 vídeos + 8 vídeos de Carlos Brandão Lucas (homenagem) + 2 (dos dez melhores documentários da história do cinema)

1996: 4 filmes + 20 vídeos + 5 filmes de Diana Andringa (homenagem) + 9 documentários importantes de 100 anos de cinema português

1997: 2 filmes + 24 vídeos + 5 filmes de Margot Dias (homenagem)

1998: (não encontro o catálogo...)

1999: 25 filmes (todos em vídeo) + 8 filmes de Manuel Costa e Silva (homenagem in memoriam) + 5 de António Campos (homenagem)

2000: (não encontro o catálogo...)

2001: 35 filmes (em vídeo) + 2 + 13 + 21 (retrospectivas)

A distinção entre “filmes” (em película) e “vídeos” segue a nomenclatura do catálogo, que a partir de 1999 deixou de diferenciar os filmes segundo o suporte, uma vez que o velho filme cedeu a vez ao novo vídeo. Hoje, usa-se a designação “filme” indiferentemente para qualquer obra cinematográfica.

Em 2002 surgiu o festival DocLisboa que veio substituir o da Malaposta e mudou de morada: CCB e depois Culturgest. Nesta transmutação, o festival internacional de Lisboa decidiu fazer um upgrade e subir de divisão através da criação de um número clausus na admissão de filmes portugueses – um número fixo: 12 – independentemente do número de filmes de interesse ou qualidade a concurso. Este critério selectivo – que se manteve até hoje - obviamente não corresponde à vitalidade que o grande incremento de documentários e documentaristas demonstra.

Em 2003, o festival internacional foi cancelado, acho que por cortes de verbas do Sr. Santana Lopes, e a organização decidiu encher a programação com todos os filmes portugueses concorrentes, mas sem competição. Não houve promoção, o festival esteve às moscas, e a programação ad-hoc mostrou total incoerência. Passaram de 8 para 80. Espero que não seja este o plano de acção para o futuro Panorama do documentário português.

(Imagem de Senhora Aparecida (1996), de Catarina Alves Costa, retirada de http://www.der.org/films/senhora-aparecida.html)

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