07 janeiro 2006

A extinção das espécies


O Pesadelo de Darwin* é um documentário-denúncia que nos mostra o modo de produção de embalagens de perca do Nilo desde que é pescada na Tanzânia até que chega à Europa. Para mim foi inédito ver - com os meus próprios olhos – o funcionamento infernal do cadeia de alimentação global, e perceber como todos fazemos parte dela: estando eu do lado dos favorecidos, ou seja, dos neocolonialistas que beneficiam de comida barata à custa dos que morrem por ela.

O pesadelo começa, de acordo com a lei da sobrevivência das espécies de Darwin, com o peixe que agora se pesca no lago Vitória e que, depois de ter matado todas as outras espécies, acabará por morrer de eutrofização. Mas antes os homens que o pescam acabarão por morrer de fome, de sida e de guerra. Daqui a dez anos aqueles africanos estarão todos mortos. Incluindo as crianças que hoje aspiram cola para vencer o medo da orfandade. A espécie humana em África está em vias de extinção. E de quem é culpa? Ou a responsabilidade.

O olhar de Hubert Sauper sobre o sistema – social, político e económico – que regula a exploração deste peixe, mostra uma realidade assustadora, sem apelo, sem solução à vista. É a grande política que é interpelada, não a pequena. Só os grandes políticos – em conjunto - podem resolver este problema. Todos os governantes dos países do mundo deviam ser obrigados a ver este filme e responsabilizarem-se pelas suas consequências a curto prazo. Todos os milhões de eleitores deviam também vê-lo para saber escolher os seus representantes políticos. Ver este filme é ficar a saber algo que ler jornais não chega para explicar.

Quando no Público de 06-01-2006, com sobranceria de crítico, Jorge Mourinha opina que este filme “resume-se a uma reportagem televisiva” e “tem pouco a ver com cinema”, parece ignorar a amplitude do género documental. Eu diria até que o formato que tem é irrevelante para a importância do seu conteúdo (“que não é bonito de se ver”, diz JM). Por isso acho absurdo classificá-lo com uma ou duas estrelinhas como se estivesse a dar notas a qualquer outro produto de entretenimento, categoria onde este filme não cabe. Ele pertence à família dos grandes documentários, onde uma câmara abanada ou as perguntas feitas pelo realizador não chegam para o classificar de reportagem.

[Eu definiria a reportagem típica como: um objecto televisivo, uma investigação jornalística realizada num espaço de tempo relativamente limitado, um relato conduzido pela voz e pelo olhar do repórter, e condensado numa montagem funcional subordinada a um texto orientador.]

Este filme é muito mais do que isso. É uma viagem a outro universo, um contacto próximo com personagens vivas (e mortas), uma excursão sem guia-intérprete, uma realidade apreendida sem comentários, por meio de uma investigação profunda. (Não, não é mais um Michael Moore - que depois das suas valiosas denúncias passou a ser injustamente olhado pelo estigma da manipulação ideológica.) Este filme não manipula ideologicamente. Manipula, sim, como todos, cinematograficamente. Pela montagem, pelo trabalho de sonoplastia, pela criação de climas e tensões, pela força das personagens, pelo olhar metafórico. E pelo seu olhar crítico, mas sem fazer juízos. Este filme não julga os aviadores, nem os donos das fábricas, nem os homens, nem as mulheres, nem os pais, nem os padres. Leva-nos até ao limbo.

Este filme põe um grande problema, um problema tão grande que extravasa mil e um filmes que se fizessem como este – e deviam fazer. Este filme põe o problema da extinção da espécie humana, segundo a lei do capitalismo mais forte. Não perca o filme da perca.

* em exibição em Lisboa numa sala marginal: Nimas

P.S. Entrevista com o realizador: http://dn.sapo.pt/2005/12/30/artes/esta_globalizacao_e_loucura.html

2 comentários:

xatoo disse...

Tambem vi este documentário no DOC LISBOA e fiquei muito impressionado, principalmente com a forma como se distribuem os restos do peixe excedente pela população local. É outro circuito na cadeia alimentar. Sub-Humano.

Alexandre Leite disse...

É uma pena ainda não estar no Porto! Não o "perco" de certeza!